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Valério Fabris: Questão urbana, realidade e fantasia

20 de novembro de 2013

O sujeito acha que os restaurantes devem ter poucas mesas, alta gastronomia e preços populares.

Sugestão de leitura do Editor Chefão do Portal DOPC.

Plantar abóbora e colher berinjela só é possível nas histórias mágicas, como as dos pés de feijão, que levam o menino ao castelo acima das nuvens. As fantasias são a ponte que podem conduzir os infantes à realidade. O crescimento se dá quando o sujeito estabelece conexões de causa e efeito. O pequenino vai aprendendo que o fogo queima, a água molha, o vidro corta.

 A maturidade instala-se no indivíduo quando ele entende que os fenômenos se explicam uns pelos outros.

Sociedades imaturas são aquelas em que a maioria dos seus membros se recusa a aceitar o princípio da causalidade, segundo o qual há laços lógicos que permitem a associação de um efeito a uma causa. O sujeito acha que os restaurantes devem ter poucas mesas, alta gastronomia e preços populares. Isso é uma asneira que está infinitamente longe de habitar o mundo fantástico dos Irmãos Grimm, de Monteiro Lobato e La Fontaine. Quando o adulto afirma que tem de ser assim, é porque continua no cercadinho, ainda brincando consigo mesmo.

Um dos êxtases imaginativos desse fabuloso homem pueril é acreditar que o seu potente carro quatro por quatro veio de algum reino etéreo, em que não há mineração, siderurgia, baterias feitas de chumbo, ácido sulfúrico e materiais plásticos. Ele voa a um distante paraíso ecológico e zen-budista sem ao menos atinar que o avião é o meio de transporte cada vez mais utilizado no mundo, apresentando-se, assim, como uma das sérias ameaças ao meio ambiente global. Além de ser o que mais gasta energia, não dispõe de qualquer sistema de purificação de suas emissões.

Aurélio conhece bem o personagem. Descreve-o como um nefelibata. É o que “anda ou vive nas nuvens”, talvez porque não tenham lido para ele, no devido tempo, a estorinha do pé de feijão que subiu ao castelo celeste. Esse meninão teima em dizer que é preciso transporte público de qualidade, abundante e barato – até mesmo com tarifa zero. Birrento, bate o pé contra o adensamento das cidades. Quer um ônibus buscando-o lá no condomínio, situado nos contrafortes da Serra do Sininho, em um itinerário que, até chegar ao seu nicho, atravessa ermos e despovoados relevos. É o tal que quer bistrô a preços de arquibancada.

O nosso herói jamais se dará conta de que a baixa de custos ocorre pelo aumento da capacidade de produção e, consequentemente, pelo incremento da oferta de bens ou serviços. Uma tarifa de ônibus fica mais barata quando há o rodízio, um intermitente entra e sai de passageiros. A comida do restaurante industrial pode, perfeitamente, satisfazer ao paladar e à parte mais sensível do corpo humano, que é o bolso.

A cidade espalhada é uma irracionalidade, só cabível na mente do nefelibata. Em seu espetáculo de ilusionismo, ele troca uma vaca por cinco grãos de feijão, que o levam à galinha dos ovos de ouro. Se o sistema de ônibus não se paga, o governo comparece com a diferença. O trabalho é apenas o de ir ao tesouro, situado na terra do nunca, onde há grande quantidade de dinheiro e objetos preciosos.

O menino que se recusa a crescer, porque careceu de ser introduzido à trama social, é dependente de um pai imaginário, que pode ser o Getúlio, o Luís ou o Raul. Mas, sem saber direito o que quer da vida, porque esse querer implica responsabilidades, ele gosta mesmo é de passear nas paisagens adensadas, cheias de “prediões” ou predinhos, como as da Ilha de Manhattan ou de Paris, nas quais os turistas não ousam alugar um automóvel, e onde não há condomínios e shopping centers.

Da fruta que Peter Pan gosta, qualquer um de nós come até o caroço. Outro dia, alguém teve a ideia de erguer um edifício na região em que mora o moço voador. Ele, escondido atrás de uma árvore, chamou os seus rebeldes com um assovio, atacando os invasores. Adensamento, não. Transporte público abundante, barato e de qualidade, sim. Paris e Nova York são muito bacanas, mas não por aqui. Afinal de contas, para que servem as asas?

Valério Fabris é jornalista, diretor-presidente da Rádio Inconfidência de Belo Horizonte/MG (*)

(*) Valério Fabris é também um amigo muito querido da tchiurma do Portal Don Oleari Ponto Com. Que vai inscrever uma bela frase sua - sua, dele - num cabeçalho dos 3 saitis do Portal.

Essa aí:

- "Não estamos em idade de desperdiçar afetos" (Valério Fabris).

Fonte:
http://www.agralha.com.br/pensata-inner.php?id=1068&token=53adaf494dc89ef7196d73636eb2451b

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