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Professor Jorge Nascimento: Somos todos macacos. Mas quem somos nós?

29 de abril de 2014

Macaco: orig. duv.; ger. considerado afr. prov. banto, difundido para as demais línguas através do português; Nei Lopes lembra o quinguana makako 'pequeno símio', tb. atribuído ao lingala, e o quicg. (vili ou cabinda) makaku pl. de kaku ou kaaku.

O Daniel Alves, ao comer a banana atirada em sua direção, provocou uma onda nas mídias e redes sociais. Sempre pensava na atitude que um jogador poderia tomar numa situação dessas, cogitei a degustação da fruta, ele assim o fez e o efeito foi enorme.

Segundo Romário, ele se agigantou. Depois o Neymar, que também tem sido alvo desse tipo de manifestação, postou a foto com a frase “Somos todos macacos”, assim em português.

E foi seguido por muitos, apoiado por David Luiz, William e Oscar, também jogadores da seleção brasileira, atuando no Chelsea da Inglaterra. Fala-se em oportunismo do Neymar, com sua fama de marqueteiro, junto à agência que forjou a campanha.

Mas gosto da frase, com seu sarcástico caráter inclusivo e plural. Mas quem é o sujeito oculto? Quem é esse “nós” que afirma seu pertencimento à categoria “macaco”? Gosto do caráter darwiniano.

Se as religiões separam, se os Estado-Nação se fecham, se as etnias se congregam em si mesmas, ou se diluem nas diásporas, o caráter amplo da inclusão choca ao ironizar.

Richard Shusterman, no livro “Vivendo a arte: o pensamento pragmatista e a estética popular”, analisando letras de RAP, fala sobre as estratégias dos negros escravizados para escaparem das diversas repressões dos senhores, uma delas era a “inversão linguística”, ou seja, ao assumir aparentemente a denominação pejorativa dada pelo outro, a torna ineficaz, inverte a direção das pressões simbólicas e psicológicas:

- “Uma das formas mais eficazes de multiplicar os sentidos era o da inversão. Como a linguagem incorpora, bem como sustenta, as relações de poder no interior de uma sociedade, o método de inversão é particularmente significativo, tanto como fonte de protesto quanto como fonte de habilidade linguística extremamente sutil” (p.173).

Cita G.S. Holst, que explica:

- “os negros reconhecem claramente que dominar a linguagem dos brancos significava deixar-se dominar por ela”.

Lembro de que numa ida a São Paulo, no início dos anos 90, estranhei que os jovens se tratavam com o termo bandido e afins, hoje eu sei que isso é herança do movimento nos EUA, com 2Pac, “vamos nos assumir ironicamente pelas palavras que eles nos designam”.

Uma das características do “ser espanhol” é a sobriedade, isso foi construído há séculos. O Daniel e o Neymar não são nada sóbrios na maneira que expõem suas imagens (assim como Balotelli e outros). Retomo a fala do Romário:

- “O racismo é uma ferida que nunca foi curada, comum em toda Europa, com graves incidências no Brasil. Infelizmente, está infestado no futebol. Eles atacam principalmente os melhores jogadores, com a finalidade de abatê-los, torná-los fracos”.

Acho que a frase-slogan, promovendo a inversão da ofensa, é eficaz justamente por fazer com que nos questionemos, discutamos. Sabemos que quando alguém de raízes cristãs “xinga” (outra palavra de origem africana) o “outro” de macaco, o quer nomeá-lo como o humano decadente, o bestializado, principalmente de origem africana.

Como figuras públicas, a reação intempestiva do Daniel é paradigmática, e o slogan da agência do Neymar é sintomático.

Um pesquisador francês, que viveu e trabalhou por decênios na África, contou que uma senhora, ao vê-lo extasiado em uma festividade, disse:

- “Eu danço, canto e rio, não porque ache a vida boa. Mas é que assim fico mais forte para poder enfrentar os desafios”.

Entendo o pé atrás dos movimentos negros e o repúdio pelo caráter de modismo mercadológico da campanha do Neymar. Mas gosto da frase porque ela traz na essência a prática de gênese arcaica (infelizmente ainda estratégica) que, ao assumir ironicamente o termo aviltante, o despontencializa.

Agora, numa sociedade racista como a nossa, em que 70% dizem que há racismo e 90% dizem não serem racistas, o que entrevejo é um sintoma. Que se assumam eles como os macacos pobres, pretos, brancos ou pardos que, muitas vezes, aparentam ser com suas atitudes.

Que o estilo carnavalesco dos trajes do Daniel e/ou do futebol garrinchesco do Neymar não sejam a marca de um país mais sóbrio e sério que almejamos ser. Não sei, por trás da aversão à frase, sinto o trauma de ressentimentos negros mal resolvidos e um temor dos “outros” brasileiros.

Sei lá, talvez porque seja macaco velho. E o que me perece mais penoso, não é a irônica “Somos todos macacos”, talvez o pior seja uma sociedade em que as pessoas se acham impelidas a vir a público para dizer que não o são (Jorge Nascimento).

Jorge Nascimento é Professor da Universidade Federal do ES.

Nota da redação:
Texto compartilhado por Juliane Gonçalves Dos Santos, de quem "copigarfamos" o texto acima.

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