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Penna Filho: Esquiva Falcão! Esquiva, Penna Filho!

30 de maio de 2014

Meu prezado Penna Filho, jornalista, radialista, roteirista, diretor de cinema, narra sua tentativa - felizmente abandonada há tempo - de encarar um ringue de box. Diz ele:

- "Manuvéi Oleari,
antes de escrever sobre o filme do garimpo de carvão, As Profundezas, aproveitando o gancho do nosso conterrâneo Esquiva Falcão, gostaria de cometer o texto abaixo. Lembra a minha desastrada experiência no box?

Está no meu projeto para um livro de memórias, cujo título poderá ser "Se não me falha a memória", obra que deverá ser prefaciada pelo manuvéi. Claro, se houver acerto financeiro...
Abração do Penna Filho".

Aquele que ousasse pisar na linha estava automaticamente xingando a mãe do outro. Aí, era briga mesmo porquemoleque nenhum aceitava que pisassem no rego ou no busico da sua mãe.

O texto

Eis que depois de dois quartéis de século, como falam os milicos, o nosso Espírito Santo tem gente nos ringues.

São os irmãos Falcão, o Esquiva e o Yamaguchi, filhos de Touro Moreno (beijando a medalha), cidadão que, segundo fontes bem informadas, não tem parentesco nenhum com o famoso Touro Sentado.

Foto: gazetaonline

Os rapazes são campeões olímpicos, um deles, o medalha de prata, foi afanado por um juiz tendencioso. Não é capixabismo explícito, não. O conterrâneo merecia o ouro.

Eu conheço. A bem da verdade, devo dizer que conheço um pouco ou um pouquinho, ou quase nada. Mas como sempre falaram os grandes nomes do futebol para marcar a sua carreira, eu estive "lá".

O "lá" não é o campo das porfias, o tapete verde dos narradores esportivos, mas o quadrilátero, onde um assalto de três minutos parece durar uma eternidade.

Não me refiro aos assaltos ao dinheiro público.

Antes dos irmãos Falcão (foto abaixo com o pai), o locutor que vos fala se interessou pelo box, a chamada nobre arte. Não pretendia ser um campeão, um Cassius Clay, um Éder Jofre.


As minhas lutas se dariam no rádio, na televisão e no cinema, onde apanharia bastante, mas sem experimentar o nocaute. É verdade que muitos tentaram me derrubar, puxando o meu tapete, mas eu sempre procurei me esquivar.

Queria apenasmente, como dizia um professor do ginasial, ver como era lutar box. Deixemos esclarecido que lutar não é o mesmo que brigar, onde vale tudo.

Por exemplo: no meu tempo de moleque, na Vila Rubim, tinha aquele negócio de sair na porrada quando se mexia com a mãe. O moleque mais velho era uma espécie de promotor.
Ele riscava uma linha no chão e cada briqão ficava de um lado. A linha riscada era chamada de "rego da mãe".

Moleques com universo vocabular maior também falavam em busico. Aquele que ousasse pisar na linha estava automaticamente xingando a mãe do outro.
Aí, era briga mesmo porque moleque nenhum aceitava que pisassem no rego ou no busico da sua mãe.

Já a luta de box é um esporte, apesar de muitas considerações em contrário, especialmente de quem viu Mike Tyson morder a orelha de um adversário.
Para muitos, o box é a nobre arte. Por quê nobre arte? Porque tem regras, exige habilidade, raciocínio rápido e inteligência. A movimentação que exige dos seus praticantes é coreográfica.

É claro que isso ocorre apenas quando os pugilistas são azes. Um az do box domina perfeitamente o adversário que ataca desordenadamente no melhor estilo briga de rua, porque sabe se esquivar, manter a distância e aguardar um brecha na guarda do adversário para atingi-lo. Sim, a força bruta também vence, mas não é muito comum.

O que me atraia mesmo era a luta da inteligência contra a força. Tinha aquela dúvida se conseguiria encarar
alguém em cima do rinque. A melhor maneira para dissipar a dúvida era experimentando.

Ou quebrando a cara, para ser sincero. Então, entrei para a Academia Wilson Russo, que ficava defronte à Igreja da Consolação, bem no centro de São Paulo.

Depois de correr, fazer abdominais e bater no saco - de areia, minha senhora - estava pronto para "fazer luvas", isto é, encarar um outro peso galo, categoria para os que pesavam entre 53 e 55 quilos. Não pesava mais do que 55 quilos e, portanto, era dessa categoria, embora deva colocar que eu não tinha categoria nenhuma.

Antes disso, porém, precisava treinar com um veterano, que faria as vezes de professor. Para exercitar os iniciantes, as academias utilizavam lutadores que faziam as preliminares das lutas dos
profissionais.

Lembro de um deles, Nelson de Oliveira, o "Goiaba". Embora na casa dos 40, Nelson ainda "lutava" para conseguir lutas no profissionalismo, a alternativa que tinha para melhorar um pouco a sua renda de operário.

Na maldosa gíria pugilística da época, o lutador que levava muita pancada na cabeça era chamado de goiaba, porque ficava mentalmente perturbado. No caso de Nelson era pura maldade. Muito lúcido, ele ajudava a rapaziada, não só orientando nos treinos como na luta pela vida. Sabe-se que o box livrou muitos jovens do abismo da delinquência. Acredito que essa figura distinta deu a sua contribuição.

Quando fui treinar com outro lutador aprendi rapidinho o que era bom pra tosse. Não é que o sujeito me acertou o diafragma, me deixando totalmente sem ar? Ficar sem conseguir respirar foi preocupante. Fui orientado para me agachar e respirar muito.

Nesse instante, eu me fiz uma pergunta que levou ao abrupto encerramento da minha passagem pelo box:

- "O que é que eu estou fazendo aqui?"

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