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Rubens Pontes: Estudante de jornalismo André Azevedo também reconta história do Binômio

18 de agosto de 2014

General Punaro Bley, ex-interventor no Espírito Santo, levou uma porrada de José Maria Rabelo e mandou quebrar tudo no Binômio.

Roberto Drummond relata, em Hilda Furacão, histórias de quando era um jovem repórter na ainda inocente Belo Horizonte, nos anos que antecederam o golpe de 64. Drummond trabalhou em diversas redações, como a Folha de Minas, a Revista Alterosa e o Estado de Minas, onde até a semana passada escrevia diariamente.

Mais tarde, trabalhou no Jornal do Brasil, que na época vivia em grande fase. Entretanto, percebe-se que guardava um carinho especial pelo período em que integrou a equipe de um tablóide ousado e irreverente, cujo lema era "99% de independência e 1% de ligações suspeitas": o Binômio, fundado pelos jornalistas José Maria Rabelo e Luiz Arantes.

O nome desse jornal era uma gozação ao programa administrativo do então governador de Minas, Juscelino Kubitschek. O deboche aos políticos era total. Em uma edição especial do aniversário de BH, governada por um prefeito que só tinha um olho, o Binômio disparou a manchete: "UM ADMINISTRADOR DE VISÃO ÚNICA".

Outra manchete rendeu uma acusação de atentado ao pudor: "JUSCELINO VAI POR ROLLA NA PRAÇA RAUL SOARES". A notícia referia-se ao empresário Joaquim Rolla, que construiria nesta praça um conjunto habitacional, hoje conhecido como JK.

Esse empresário seria vítima de outras manchetes atrevidas, como "JUSCELINO FOI A ARAXÁ E LEVOU ROLLA". O empresário Rolla caíra como uma luva nas mãos dos jovens jornalistas para "complementar" a fama de Juscelino, tido como galante e conquistador.

O jornal definitivamente escandalizava a Tradicional Família Mineira (TFM), instituição que dominava a capital interiorana e moralista da época.

Mas o Binômio também era combativo. No governo de Bias Fortes, o jornal tornou-se um símbolo de contestação política. "BIAS ESPECULATÓRIO E CONTRABANDISTA", foi uma das manchetes do período. Em entrevista a estudante Laura Valente, publicada no jornal-laboratório Lince, do Centro Universitário Newton Paiva, José Maria Rabelo conta que eles foram processados pelo governador 28 vezes, mas ganharam todas.

Uma reportagem de Roberto Drummond e Antonio Cocenza, publicada no Binômio, rendeu ao jornal vários prêmios em 1950. A dupla foi investigar uma denúncia sobre tráfico de retirantes nordestinos que estariam sendo vendidos como escravos. Drummond e Cocenza passaram-se por filhos de fazendeiros e percorreram a rota desse comércio. Conseguiram abordar o "gerente" do pau-de-arara, compraram um casal – Manoel e Francisca – por 4 mil cruzeiros (cerca de 200 dólares) e ainda trouxeram recibo. Tudo registrado e fotografado.

A matéria alcançou repercussão internacional. Foi notícia nas revistas Time e Paris Match e no jornal Le Monde. O casal liberto deu depoimento na Câmara dos Deputados e no Senado. Essa história está relatada em Hilda Furacão.

Punaro Bley, interventor no Espírito Santo

Em 1961, um episódio marcou a história do Binômio. O jornal publicou uma reportagem revelando a simpatia do General de Brigada João Punaro Bley pelo fascismo.

Mostraram que, no Espírito Santo, fora Interventor Federal durante a ditadura do Estado Novo e chegara a organizar sua própria Gestapo para caçar comunistas.

A manchete foi "QUEM É FUNARO BLEY – DEMOCRATA HOJE, FASCISTA ONTEM". O General foi à redação e agarrou Rabelo pelo pescoço. Rabelo deu-lhe um soco daqueles de deixar olho roxo.

Duas horas depois, 200 homens cercaram o quarteirão e destruíram o jornal. Mesmo assim, impresso no Rio de Janeiro, o Binômio funcionou até 29 de março de 1964. Não havia condições de continuar depois do golpe militar. Rabelo exilou-se na Bolívia e só voltou ao Brasil na anistia de 1979.

Ziraldo chegou a declarar que "o Binômio virou uma febre, só repetida, alguns anos depois, nas areias de Ipanema, com seu irmão carioca, o Pasquim".

Foi Roberto Drummond, na época do Binômio, por exemplo, que "descobriu" o cartunista Henfil. Entretanto, certamente por não localizar-se no eixo Rio-São Paulo, a importância do Binômio é sempre "esquecida" na história da imprensa alternativa.

Rubens Pontes é contermporâneo de Roberto Drummond, Mauro Santayana, José Maria Rabelo e Luiz Arantes. Conviveu com todos eles nessa época vibrante da imprensa mineira. Roberto Drummond morreu em 2002.
Pontes relembra que o Binômio estaria fazendo 62 anos.


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