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Cacá Diegues: Obama é uma boa - sugestão de leitura de Valério Fabris

19 de julho de 2015
19/07/2015 

Cacá Diegues é cineasta

Embora não tenha realizado os sonhos de quem o queria um guerrilheiro afrodescendente, ele só pode ser comparado, por sua política econômica e social, ao mítico Franklin D. Roosevelt

Tudo bem que quase tudo vai mal. Os jornais, a televisão e a internet não estão praticando nenhum sadismo com seus consumidores, tudo é assim mesmo, o mundo não anda lá essas coisas. Mas, de vez em quando, a gente tem o direito de reagir, catando notícias em nome de uma certa esperança, o direito de pular por cima do Estado Islâmico, da Lava-Jato, das bolsas chinesas, dos que pedem na rua a volta dos militares, de tanta guerra e tantos crimes, em busca de alguma coisa boa.

Se eu fosse americano, por exemplo, estaria muito feliz com o governo de Barack Obama, não importa de que partido eu fosse eleitor. Aliás, pensando bem, mesmo não sendo americano, tenho razões para estar feliz com o governo dele.

Quando Obama foi eleito, todos nós superestimamos seu poder de, em quatro anos, transformar radicalmente um país com mais de dois séculos de cultura política e social específica, um país com um papel muitas vezes nefasto no chamado concerto das nações. A frustração gerou gigantesca e injusta onda de decepção, mesmo que estivéssemos a par do que fazia contra o presidente a maioria republicana e, mais do que esta, a elite financeira dos Estados Unidos e seus parceiros, a mais poderosa do mundo.

Mas Obama tinha sido eleito democraticamente, num país cuja maior virtude é essa mesma, a do respeito à democracia formal (pelo menos internamente). Com habilidade, o presidente seguiu em frente com seus projetos e, a dois anos de encerrar seu governo, deixa um belo legado. Embora não tenha realizado os sonhos absurdos de quem o julgava um potencial guerrilheiro afrodescendente malocado na Casa Branca, ele só pode ser comparado, por sua política econômica e social, ao mítico Franklin D. Roosevelt dos anos 1930 e 40. Como Roosevelt, Obama tem sido um herói do possível.

Ele recuperou a economia americana arrasada desde 2008, retomou o crescimento do país, baixou os juros, enfrentou a ditadura financeira do famoso 1% de cidadãos americanos que detêm o poder, como denunciou o pessoal do movimento Occupy Wall Street. Obama criou um inédito programa de seguridade social universal, o chamado “obamacare”, beneficiando a população pobre e de classe média que nunca teve direito a esse tipo de bem social. Ele tirou o exército americano do Iraque e de outros países do Oriente, para onde não tinha sido ele que o havia mandado. Reaproximou os Estados Unidos de Cuba e fez um acordo com o Irã que pode inaugurar um novo tempo de distensão nas relações internacionais em todo o mundo. E tudo isso com a paciência, a tolerância e o entendimento de um Martin Luther King ou de um Nelson Mandela. Nós ainda vamos sentir falta de Obama.

Enquanto isso, o ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schäuble, declara que a solução para a crise grega é eliminar a Grécia da Comunidade Europeia e da zona do euro, deixá-la sangrar. O que fez o filósofo Jürgen Habermas, grande pensador alemão do pós-guerra e um dos mais importantes formuladores da integração europeia, acusar o governo de Angela Merkel, em entrevista ao jornal inglês “The Guardian”, de estar jogando no lixo o esforço de gerações para reconstruir a reputação democrática e solidária da Alemanha depois do nazismo.

A chanceler alemã, com sua política de “austeridade”, seu descaso pela humanidade do outro e seu gosto pela autoridade, retoma alguns temas que foram as fontes do velho nacionalismo alemão inaugurado por Otto von Bismark, no século XIX (em alguns jornais europeus, já há quem a chame de “Angela Bismarkel”). Alguém deve lembrá-la de que, em 1953, justa e generosamente, os países vencedores perdoaram a dívida alemã contraída com os danos da Segunda Guerra Mundial, uma dívida muito maior do que a da Grécia de hoje, causada por conhecidos horrores bélicos.

(Ai, meu Deus! Relendo os dois parágrafos anteriores, me dei conta de que não foi possível falar só de coisa boa, embora a superação temporária da crise grega seja mesmo uma notícia positiva).

A morte de Alcides Gigghia também não foi uma boa notícia da semana. Ele era o ponta direita da brava seleção uruguaia que derrotou o Brasil na final da Copa do Mundo de 1950, em pleno Maracanã recém-inaugurado. O Brasil fizera uma Copa extraordinária, formando um time assombroso, com jogadores como Bauer, Danilo, Jair, Zizinho, Ademir, o começo de nossa mitologia de pátria do futebol-arte. Precisávamos apenas do empate na decisão e estava 1 a 1, quando Gigghia desempatou para o Uruguai, faltando menos de dez minutos para o fim do jogo.

O famoso “Maracanazo” ficou na memória dos brasileiros como uma tragédia improvável, uma dor que não pode passar, uma injustiça com um país tão merecedor e tão necessitado de sucesso. A derrota de 1950 foi um pesadelo trágico que, desde então, tem feito parte de nossa formação como nação. Nem de longe se compara com a patuscada patética daquele 7 a 1 contra a Alemanha, digna apenas de riso, mofa e desprezo.



Valério Fabris é jornalista
É presidente da Associação dos Amigos do Museu de Arte da Pampulha, Belo Horizonte (MG)





Fonte:
http://oglobo.globo.com/opiniao/obama-uma-boa-16814344

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