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Marinela Soneghet: A casa não está vazia...

30 de outubro de 2015
Um homem extraordinário esteve entre nós. Foi longa sua caminhada nessa vida transitória – perto de um século, neste século vertiginoso de progressos e descobertas que vivemos. Seguiu agora seu caminho, rumo às estrelas. Quem o conheceu ficou marcado para sempre por sua personalidade forte, seus vastos conhecimentos.
Meu companheiro de jornada durante 53 anos, construimos juntos nosso pequeno/grande mundo, enriquecido de filhos e netos.

Deixou-nos exemplos de honradez, de incansável laboriosidade, de vasta cultura, de insaciável curiosidade no sentido de aprender mais e sempre mais. Com um impressionante domínio de todos os assuntos – no mundo das artes do clássico ao moderno: música, pintura, teatro, cinema, literatura, grandes biografias, da História universal à contemporãnea, da tecnologia (eletricidade, mecânica, eletrõnica, engenharia) que aplicava no dia-a-dia encontrando soluções ou criando invenções inéditas com surpreendente criatividade... falante de sete idiomas, leitor assíduo de todos os gêneros... versátil em tudo, afável, amigo fiel – que direi mais?

Que direi mais? Que não tinha defeitos, manias, teimosias? Sim; tinha. Não era um homem fácil. Determinado, auto-confiante, homem de muitos saberes, isso o tornava por vezes inflexível. Só o dobrava a doçura, a paciência, a persuasão pacifica – talvez mais pela emoção que pela razão (“qualidades” que nem sempre eu tinha) – mas a medida do amor não é o mar de rosas; amar é a capacidade tolerar, perdoar, compreender, superar. Amar é o respeito pela individualidade do outro, é saber contornar as dificuldades, é estimular as afinidades e ter objetivos comuns, amar é o companheirismo que suplanta o “entrevero” natural de personalidades singulares...

Ficamos a cogitar: para onde terá levado ele seu mundo de conhecimentos, onde os aplicará? Conhecimentos que ele tentava partilhar, mas nem sempre eramos capazes de assimilar e compreender, tão profundos eram. Essa incógnita quase me deprime, pois quisera preservar cada cêntimo do milionário cabedal que ele detinha.

Esse pálido perfil não faz jus ao Homem (sim; com H maiúsculo) que ele foi. Com seu nome pomposo: Ernst Alexander Rudolf

Bergmann, por onde passou deixou inapagáveis pegadas – pegadas que, espero, nossos filhos e netos possam seguir e palmilhar com orgulho e como exemplo. Que seja essa sua verdadeira herança. Que sua “presença” constante - só tornada possível pelo amor – permaneça sempre.

Que as lembranças de tantas viagens, aventuras, inusitadas excursões por “mares nunca dantes navegados” nos tragam sempre o sabor do insólito, da beleza do mundo que nos cerca, das possibilidades que a vida tem a nos oferecer e que ele soube desfrutar amplamente.

Nascido num pós-guerra, tendo forçosamente participado da segunda guerra e vivenciado sua pátria destruida, tudo suplantou até construir uma nova vida – e a vida escolhida foi aqui, em nosso país tropical, ao lado da “menina capixaba” de então, que teve o privilégio de partilhar sua vida riquíssima.

Se após a cerimônia do adeus a gente volta para casa e, no primeiro momento, tudo parece oco e destituido de sentido - logo o percebemos - isso não é verdade; é só uma sensação passageira causada pela fragilidade emocional, pois o legado maior e significativo tornará permanente a presença de quem aparentemente partiu.

Não; a casa não está vazia, nem vazio está o coração – porque existe a plenitude no amor. No amor nada se perde –  tudo se recria, se perpetua, vive latente, pulsante na chama que não se apaga (Marinela Soneghet).

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