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Jorge Nascimento: Os estrangeiros

19 de novembro de 2015
Copigarfado do maledeto feissibuqui.


Texto que não saiu no Jornal Metro de hoje:

Os menininhos negros e espertos de 10 anos ainda trabalham na rua quando deveriam estar na escola, com a família, se divertindo. 


Os estrangeiros


Certa vez, um garotinho de uns 10 anos sentou-se ao meu lado no ônibus, antes estava vendendo doces no ponto final. Estava com uma caixa de papelão, já vazia, tinha o olhar esperto e inquiridor, contou e recontou o dinheiro, enrolou as notas, pôs um elástico e enfiou dentro da bermuda, na parte da frente. 

Colocou as moedas num saquinho e enfiou no bolso. 

Peguei um livro, era sobre uma tribo africana, Os Nuer, havia fotografias do povo que tem uma relação muito próxima com gado, são pastores, altos e esguios. Havia aqueles bovinos de chifres enormes e homens e mulheres, seminus. 


Senti que o pequeno empreendedor observava as figuras, puxei conversa, mostrei as ilustrações, ele riu de umas fotos em que apareciam genitálias... 

Falei que nós vínhamos da África, falei da escravidão, que nossos antepassados vieram de lá, não concordou muito, mas ouvia e de vez em quando perguntava:

-  “é mesmo?”. 

Falei que nossos ancestrais - (quequié isso?) – eram de lá. Perguntei:

- “Será que esses não são seus parentes?”. 

Me olhou e olhou para uma das imagens, riu e disse: 

- “É ruim, hein! Negão feio pra caramba!”. 

Lembro sempre dessa história e hoje, quase trinta anos depois, vemos o quanto ainda temos que educar e nos educar. 

Faz um ano que o professor da UFES proferiu o discurso racista em sala de aula. Os casos da Maju, da Taís Araújo – personagens globais - dão visibilidade ao que ocorre no dia a dia, negro que não é figura midiática sabe do que estou falando. 

Em quaisquer que sejam os indicadores sociais, os negros estão em situação desvantajosa. Na Universidade, vejo, através da política de cotas e da presença de estudantes africanos que vêm através de convênios, a insinuante movimentação política e cultural que gera debates e viabiliza a exposição dos anseios e das dificuldades específicas desses grupos em relação à instituição e à “comunidade universitária”. 

Os menininhos negros e espertos de 10 anos ainda trabalham na rua quando deveriam estar na escola, com a família, se divertindo. 

E pior, não veem saída, são de lugar nenhum, assumem a inferioridade e imitam a sociedade que os inferioriza, não sabem de onde vêm, ignoram sua história. 

Não percebem a beleza e a luta de seus ancestrais (não sabem o que é isso). Há muito o que se fazer, há muito o que se descobrir. O que é inaceitável é nos vermos como nos pintam, é viver num país onde nos fizeram ser estrangeiros para nós mesmos (Jorge Nascimento).

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