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Rogério Medeiros: Aurora Gorda, a prostituta respeitosa - sugestão de leitura de Orlando Eller / Leia também Pitaco do Oleari, imperdível

23 de dezembro de 2015
Veja Pitaco do Oleari logo abaixo do texto de Medeiros. Está imperdível, falsa modéstia à parte (Oleari).

O jornalista Orlando Eller encaminhou o velho texto do jornalista Rogério Medeiros com o seguinte comentário:

- Uma linda crônica, narrativa sublime do jornalista Rogério Medeiros, mandachuva de www.seculodiario.com.br (Vitória-ES).

Quando retornei ao Espírito Santo, após quinze anos pelos encantos do Sul, Vitória e seus arredores trocavam de roupa. Tudo efervescia em dinâmica. Até as putas foram confinadas em São Sebastião, em nome de um esquadrão e sua prepotência tão ágil quanto uniformizada.

Aquela Vitória acabou. Hoje tem um tudo de menos, a começar de seu jeito simples, muito romântico, quase familiar. Coisa do capital e da necessidade material de sobreviver. Não há mais Auroras como ela; só Auroras de mil e um jeitos e de muitas cores. 

Em substituição, entendo (Orlando Eller (*).

Aurora Gorda, a prostituta respeitosa
Por Rogério Medeiros



“O importante não é aquilo que fazem de
nós, mas o que nós mesmos fazemos do
que os outros fizeram de nós.”

(Jean Paul Sartre, autor da peça ‘La Putain
Respectueuse’, encenada no Brasil com
o título ‘A prostituta respeitosa’)

Por volta dos anos 50 do século passado, quando se deu o auge dos bordéis da Volta de Caratoíra, ela surgiu arrebentando com uma inusitada proposta de sexo - com peito ou sem peito. Época em que os bordéis da Volta de Caratoíra eram os melhores caminhos para os homens das elites capixabas compensarem os seus insucessos amorosos com namoradas, noivas e esposas.

Pois era um tempo em que as moças casavam virgens e as esposas só faziam sexo na base do papai-mamãe. Já nos bordéis da Volta de Caratoíra, através de uma bem montada indústria de sexo, eles encontravam caricias atordoantes ofertadas por ardentes raparigas, envoltas em verdadeiras alegorias sexuais, servindo de pretexto para resguardar a virgindade de namoradas e noivas, bem como manter a moral conservadora na relação sexual com as esposas.

Onde homens dos mais variados setores das elites capixabas saciavam os seus desejos de sexo livre, a exemplo dos advindos do setor econômico do café, o mais abonado da época. Face a essa presença de frequentadores abonados, transar na Volta de Caratoíra não era para qualquer um. Até porque o câmbio era muito alto, o que proporcionava, inclusive, uma boa remuneração às suas raparigas por jornada de sexo.

Eram máquinas de sexo que só não operavam às sextas-feiras. Dia em que os seus frequentadores levavam suas namoradas, noivas e esposas ao cinema e às noitadas dançante nos fechados Clube Vitória e Praia Tênis Clube. Já as raparigas valiam-se da folga para ir às compras, e muitas delas se davam ao luxo de colocar as despesas, dos finos tecidos escolhidos, na conta de clientes. A oportunidade também permitia um desfile em frente ao café Almedinha, na Praça Oito, ponto de encontro dos homens de negócio e dos políticos.

Fora desse dia da semana, as demais noites eram das mulheres do sexo, principalmente as que pertenciam aos seus dois melhores bordéis: Casa Verde e Casa Branca. Seus frequentadores dispunham ainda de um fim de noite assegurado num dos restaurantes dos melhores pratos das noites de Vitória: o Mar e Terra. Entre suas especialidades, galinha ao molho pardo, recomendada no cardápio para fechar uma noite de sexo. Para os boêmios, havia o recurso de uma ótima saideira no bar Royal, que também pontificava na área.

Entre as raparigas, dessa verdadeira área de aromatização para sexo, havia belezas como Elza Mendes, uma mulher escultural e até alta para os padrões brasileiros; Elza Pernambucana, fina em cima e redonda em baixo, modelo violão, e a Bibelô, Nair Bibelô, estatura mediana, morena, com um rosto lindo, acostumada, por essa ocasião, a ser comparada à atriz italiana Gina Lollobrigida, que despertava sonhos eróticos nos machos da cidade quando surgia nas telas do cine Glória. Não seria exagero afirmar que muitos dos frequentadores da Volta de Caratoíra tornaram-se escravos dos encantos de Elzas e Bibelô.

Mas havia também as que não faziam parte desse conjunto da atração física, mas que se fizeram preferidas por serem verdadeiras máquinas de sexo. É nessa categoria que vamos encontrar a principal personagem desta reportagem. Que, quando chegou por lá, ainda nova, era uma baixinha, redondinha, discreta gordinha, loura, rosto arredondado, com um par de seios imensos e pontiagudos, que davam o tom de uma sensualidade incomum. 

Tinha o hábito de indagar do freguês se queria fazer amor com peito ou sem peito. Com peito, ela ficava por cima oferecendo os seios aos lábios do freguês. Sem peito, era ela por baixo para que o freguês gingasse em seus peitos. O orgasmo dela, independentemente da posição, vinha também pelos peitos, asseguram, ainda hoje, anciãos que os experimentaram quando jovens. Nos seios, ela marcaria uma história incomum na prostituição capixaba. Por essas condições inusitadas e especiais é que ela é a gênese dessa reportagem.

Mas deixemos a história dela para mais adiante, quando vamos encontrá-la arrebatada em êxtase de querer ser uma dama da sociedade capixaba. Por ora, voltemos a falar dos tipos bem-acabados que enfeitavam a Volta de Caratoira. Pois havia também os seus galãs. Ao contrário da praxe, eram homens que despertavam fantasias sexuais nas suas raparigas. Entre os mais cobiçados encontravam-se Lulu Beleza e Oscar Neiva, e uma outra figura, envolta, porém, em permanente mistério, que atendia pelo nome de Jorge Michellini. Ele tinha vindo de São Paulo para juntar-se à sua família, dona de uma empresa líder no mercado de exportação de café.

Era hábito dele chegar sempre pela madrugada. Não era de parar no salão. Bebida também não era com ele. A dele era a de levar logo a rapariga para o quarto, onde permanecia horas, gerando os mais desencontrados comentários. Gostava de usar uma capa escura que o diferenciava dos demais frequentadores. 

Costumava ser inabordável. Só com o passar dos anos é que ele fez algumas relações de amizade. Uma das mais duradouras foi com o boxeur Touro Moreno. Durou até a sua morte, por sinal também envolta em mistério. Por ocasião dela, achava-se entre os suspeitos da morte da menina Araceli, crime que abalou e emocionou o Estado. Pois os seus assassinos eram dessa linhagem que originou esse bairro de prostituição na Volta de Caratoíra. Por conta ainda dos seus mistérios, o local em que ele morreu, num acidente de carro (que mais se assemelhou a um suicídio), é uma das principais avenidas de Vitória, a Dante Michelini, em homenagem ao pioneirismo do seu pai no comércio de exportação de café.

Mas era um tipo de homem que não encantava só as raparigas pela sua estampa, como também as moças da Praia do Canto. Só que o seu estilo de vida, com sua preferência pela noite, fazia com que ele ficasse longe dos olhares e desejos das moças da sociedade. Se naquele tempo a Nair Bibelô estava para Gina Lollobrigida, ele era a próprio clone do ator Marcello Mastroiani, da comédia de costumes “La Dolce Vita”, de Federico Fellini, e do drama de Mauro Beolognini “O Belo Antônio”. Em que Mastroiani fez o papel de um homem por quem as mulheres se apaixonavam, achando que fosse o amante ideal, mas na realidade ele era impotente.

Para completar a lista de homens que marcaram época na Volta de Caratoira é necessário incluir um outro, também top de linha da elite capixaba. Descendência da família Oliveira Santos: Hélio Oliveira Santos. O maior boêmio da vida noturna da cidade, nesse período em que a Volta de Caratoira representou o alto meretrício de Vitória. Frequentava os bares da época, o Glória, ao lado do Cine Glória, e o Sagres, da família do ex-prefeito de Vitória Crisógno Cruz, próximo aos Correios. Mas, inevitavelmente, a sua noite acabava na Volta de Caratoira. Tinha um temperamento expansivo e vivia cercado de amigos. Havia noites em que pagava a conta da bebida dos frequentadores do salão do bordel no qual se encontrava. Para dar uma idéia da fortuna de sua família, basta dizer que ela era dona do hoje imenso bairro de Itapoã, em Vila Velha. Boêmios como Hélio, mas em grau menor, e que também pontificaram na Volta de Caratoira, foram Fenelon da Silva Santos, Bubu Rabelo e Delfim Borgo.

Mas a Aurora Gorda, da fantasia sexual com peito ou sem peito, esteve na linha de produção por pouco mais de quatro anos, quando a renda, conseguida junto à sua vasta clientela, proporcionou-lhe a aquisição de seu próprio bordel. Por sinal, com o tempo, viria a ser o maior da Volta de Caratoira com os seus 40 quartos e ainda um apartamento à parte para ela. Diferente da Casa Branca e Verde, que atendia à elite capixaba, o dela passou a atender à classe média. Os preços de suas raparigas também eram menores.

Em pouco tempo, ela ganharia dinheiro suficiente para buscar uma sonhada ascensão social. Investiu alto nesse sentido. Com a pretensão de integrar-se à sociedade, ela passou a ostentar uma invejável situação financeira. Logo compraria um carro de luxo, um Dodge Dart, com motorista a seu serviço. Pelo dinheiro de que passou a desfrutar, virou uma das melhores correntistas do Banestes (na época, Banco de Crédito Rural do Espírito Santo). Segundo o seu advogado, Paulo Barros, à moeda de hoje, ele calculou que ela mantinha uns R$ 3 milhões fixos em depósitos no Banestes. Barros comentou que, pela condição de seu advogado, era assediado pelos demais bancos para conseguir uma fatia dos depósitos que ela mantinha no Banestes. Mas Aurora resistia. O Banestes a tratava com a deferência dispensada aos grandes depositantes e sabia muito bem disfarçar o fato de ela ser analfabeta e não assinar o próprio nome. Quando ia à agência central do Banestes, era recebida pelo próprio gerente. Na hora de finalizar a operação de depósito, ou retirada de dinheiro, criavam sempre uma situação em que ela pudesse meter o dedão no recibo longe dos olhares mais curiosos.

Montada no dinheiro, Aurora passou a viver uma vida de fantasia. Logo trocaria de carro. Do caríssimo Dodge Dart para um ambicionado e supercaro Galaxy. Uma marca de carro que na Vitória daquela época só tinha um exemplar: o do exportador de café Elias Saad. O Galaxy dela passou a ser, portanto, o segundo da cidade. Mas ela levava constantes constrangimentos ao seu advogado quando estacionava com ele à porta da sua residência. Como o carro sinalizava a sua presença, o advogado costumava solicitar-lhe, que quando fosse lá, trocasse o espalhafatoso Galaxy por um discreto táxi.

Nessa nova condição social, logo ela deixaria de ser a Aurora gordinha para se transformar na real Aurora Gorda, a imagem, inclusive, que dela ficou para a posteridade: obesa, seios grandes e caídos. Deu para viver longos períodos de depressão por causa da situação em que os seus seios ficaram. Acabou resultando na recomendação de seu advogado para uma cirurgia de reparação. Ela topou, mas exigiu que o cirurgião plástico fosse o melhor do Brasil. Gastaria o que fosse necessário. Foi operada, por nada mais, nada mais, do que o famoso Ivo Pitangui. A cirurgia não restabeleceu a forma original dos seus seios, mas deu-lhes uma boa levantada. Custou, como disse Barros, “os olhos da cara”.

Mas, como deixou de utilizá-los para fins comerciais, eles passaram a ter outras utilidades, além do uso restrito dos seus namorados. Segundo Touro Moreno, que foi o seu segurança por alguns anos, ela costumava circular pelo seu bordel, escondendo entre os seios um revólver Shhmidt & Wesson. Calibre 38, cano curto, de madrepérola. A respeito ainda de suas novas utilidades, Barros disse que, na falta de talão de cheque, pelas sua condição de analfabeta, quando ela ia às compras, o dinheiro ia também no meio dos seios. O que confirma o empresário Francisco Azeredo, que, por essa ocasião, era dono da luxuosa butique Dol Sport, que atendia o mulheril da sociedade capixaba. “Ela vestia as suas moças na minha loja e pagava à vista. Metia a mão dentro dos seus peitos e tirava um maço de notas. Gostava do melhor, não fazia questão de preço.”

Consta que ela era uma criatura extremamente generosa. Usou muito do seu dinheiro para amparar raparigas que saíram da linha de produção por terem envelhecido. Empregou também parte do seu dinheiro em imóveis. E ofereceu às duas filhas, que adotou, vida de princesas, a ponto de terem estudado no colégio mais requintado de Vitória e preferido das elites, o Sacre-Coeur de Marie. Onde teve que enfrentar a ira dos pais das alunas que passaram a exigir que as freiras expulsassem as suas filhas. O que não só ocorreu pela reação ameaçadora que teve. Ela disse às freiras que, se suas filhas fossem expulsas, ela iria mandar publicar nos jornais o nome dos pais das alunas que frequentavam o seu bordel.

Já Touro Moreno assegurou que, enquanto rapariga, ela evitou sempre ceder aos encantos dos cafetões, para não ser explorada como as demais. Só procurou o seu príncipe encantado quando se viu rica e poderosa. Inicialmente, um sapateiro na Cidade Alta, um verdadeiro artesão, que fazia os seus calçados por encomenda. Depois dele. um motorista de táxi de nome Zé Grande. Romance que até durou um bom período. Por último, um garçom do Mar E Terra, uma paixão platônica ainda do seu tempo de rapariga.

Entre outros expedientes para conseguir entrar na sociedade capixaba, destaca-se o uso que ela fez da imagem do ex-governador Eurico Rezende, a quem conheceu quando ele ainda era deputado estadual. Ao descobrir que ele procedia da mesma cidade mineira dela. e ainda com o mesmo sobrenome, ela passou a espalhar que era sua prima. Eurico não estrilou e muito menos recusou o parentesco, por render-lhe votos.

Sobre essa relação de parentesco com Eurico, o próprio costumava contar, até com algum gracejo, o que se passou entre eles por ocasião da sua posse no governo do Estado. Por essa época, Aurora não se encontrava mais na Volta de Caratoíra que havia fechado. (Vou contar o seu fim mais adiante). Ela já estava no final de Camburi com uma boate e um motel. A clientela já era outra. Quase toda de embarcadiços dos grandes graneleiros que vinham buscar minério no porto de Tubarão. Aurora acostumou-se a adquirir produtos importados dos seus marujos, para presentear os seus novos amigos do ciclo da elite, entre os quais se incluía a mulher do Eurico.

Mandava presentes para ela, mas não a conhecia a pessoalmente. O que somente veio a ocorrer por ocasião da posse do Eurico no governo do Estado e na fila dos cumprimentos no Salão Nobre do palácio Anchieta. Quando chegou a vez dela de cumprimentar o governador, Eurico valeu-se da sua presença para apresentá-la a sua mulher, ao seu lado: “Maria, olha a Aurora, essa é que é a Aurora.” 

As duas se abraçaram e iniciaram uma cordial conversa, fazendo com que a longa fila dos cumprimentos parasse. Como a conversa se prolongava, Eurico pediu para elas apressarem as despedidas. Dona Maria, agradecendo os presentes, prometeu visitar Aurora. Quando ouviu sua mulher responder ao convite de Aurora que a visitaria em breve em sua casa, Eurico ironizou a mulher: “Maria! Você vai aonde, Maria? Na casa de quem, Maria? Fazer o quê, Maria?” Aurora partiu risonha com a reação do parente governador, dentro de um invejável vestido que mandou buscar em Paris, na França, especialmente para a posse do parente.

Outro episódio interessante e digno de registro foi o que ocorreu com ela quando o clube Vitória, o preferido das elites, lançou os seus títulos de sócios proprietários, para construir sua sede. Ela comprou logo três. Quando compareceu à inauguração da nova sede, ela criou um enorme reboliço. Antigos frequentadores de seu bordel, na companhia de esposas e filhos, exigiram que ela deixasse o recinto e prometiam, como compensação, devolver-lhe o dinheiro dos seus títulos. Ela não só recusou como também ameaçou recorrer à Justiça. A verdade é que. depois dessa cena, o clube Vitória deixou de ser o clube da mais fina e requintada sociedade capixaba.

Mas o fim da era da gastança e da bonança de Aurora ocorreu por duas circunstâncias: um mal sucedido caso de amor e a revolução sexual dos anos 60 do século passado. A revolução sexual, cujo símbolo foi a queima dos sutiãs, foi o movimento que acabou com o tabu da virgindade e o mulheril passou a fazer sexo à vontade, sem qualquer distinção de classe social. As mulheres das elites também foram para a cama com seus namorados, noivos, maridos, e algumas até arranjaram amantes, de acordo com a onda instalada do sexo liberado. A Volta de Caratoíra perdeu a sua utilidade. O pouco que sobrou dela foi junto com o baixo meretrício de Vitória para Carapebus, na Serra.

O fim da Volta de Caratoíra, entre outras conseqüências, estancou a fonte de riqueza da Aurora. E o romance com o garçom do Mar e Terra também teve um alto custo, contribuindo para que ela não alcançasse o tão ambicionado desejo de conquistar um lugar de destaque na alta sociedade capixaba e muito menos encontrar o seu sonhado príncipe encantado.

Em compensação, ela é a única personagem feminina que sobrevive na história da frenética fábrica de sexo da Volta de Caratoíra, vista, por um ângulo, de forma bizarra, e, por outro, como a história da inabitual trepada. Mas, para fazer jus à lenda da Aurora Gorda, com peito ou sem peito, é bom não deixar sem registro os rumores que partiram por ocasião do seu sepultamento, dando conta de que prepararam o seu corpo no caixão de tal maneira que os seus seios foram vistos, pela última e derradeira vez, com o charme natural da sua existência.

Pitaco do Oleari

O jornalista Orlando Eller me enviou o texto há um tempim. Pensei, pensei, cupieicolei na pauta de edição. Italá há um tempim, por preguiça minha de escrever as bobagens quitô escrevendo agora.

Mas valaquiseji, quinemqui diz meu amigo pintor (de paredes) Genésio da Matilde. É pra sofrê, vamusofrê logo, é uqui digo sempre pros mais próximos que têm a mania de sofrê in antes e cumeçam a elocubrá pelas pernas.

Sempre mantive o melhor relacionamento com o jornalista e o personagem Rogério Medeiros. Sempre nos respeitamos e nos admiramos. E comungamos até de algumas ações políticas ou ambientais. Tivemos uma pendenga na época do Sindicato dos Jornalistas, do qual sou fundador.

E niquiqui recebi a carta sindical das mãos do então Ministro do Trabalho, Arnaldo Prieto, desci do palco e entreguei ao Rogério, segundo presidente do sindicato. O primeiro, provisório até as eleições, fui eu, sinsinhô, apesar da escumalha esquerdinha pelaí sempre ter feito o possível pra esconder o fato. 
E jamais o Sindicato ter me convidado para qualquer coisa, apesar de homenagearem sempre qualquer viralata.
Mas a pendenga foi uma questão institucional, digamos. Nada pessoal.

Com exceções, é claro, porque ele - por exemplo - é fanático por Augusto Ruschi e eu sempre achei o Ruschi meiqui duvidoso, meiqui marketero demais pros meus gostos (agora, tô virando marketeiro) e inventou coisa pracacete, coisas que ganharam alguns incautos e mal informados. Xapralá, que aqui uqui tá contando é Rogério Medeiros. O Ruschi, suas invencionices e suas bravatas, é secundário.

Certa vez, no estúdio do Jornal do Povo, um campeão de audiência que mantivemos na TV Vitória de março de 1985 a março de 1988, pintava uma ideia de uma candidatura a deputado, proposta por um bando de amigos, todos amadores em política quinemquieu. 

Rogério disse, pra quem quisesse ouvir: "torço pra você ser candidato e eleito, pois vai ser menos uma filho da puta na Assembleia do ES".

Nunca falei mal do Rogério pra quem quer que seja. Em 2000, estava eu na Rádio Espírito Santo com o programa "Café da Manhã", um dia ele liga e me diz:
- Você tem um programa diário, dá pra aguentar uma coluna diário no seculodiário".

Embabaquei de cara. Inferneti? Uquiqui tinha o Olearissauro com a Inferneti?
Disse pra ele: "mas, num intendu disso daí não, sô. Sou anarfa e mal sei manejar uma trolha eletrônica bilgueitiana istivijobiana".

Ele insistiu e disse que eu tinha o principal, que era tá nas paradas todos os dias, tinha informação pra muito papufuradu. Fui e fiquei no seculodiario até 2005. Aí comecei a me chatear porque aquele dinossauro comunista recalcado do Stenka Amaral começou a meter o bedelho na minha coluna - segundo o próprio Rogério, depois da dele, a coluna com mais acessos diretos do saiti.

O Stenka sempre me dizia: "sua coluna é com o Rogério". Mas, um dia ele chiou porque tinha escrito uma cascatinha elogiando a Lilian de Mello, que era a prefeitinha da Vila Rubim, sei lá. Ora, falei na Lilian como candidata a vereadora porque a Lilian é uma mulher inteligente, preparada, de visão, não pelo partido dela, que continuo achando uma bosta.

Mas, como todo comunista boçal, recalcado, você só pode falar dos ou nos que pensam quinemqui ele. Outro dia, já na época do Dotô Lulácio da Silva Honoris Causa, eu insculhambava com umas bandalhas do governo e o Stenka me liga pra dizer:

- Oleari, a corrupção está aqui, está no governo do Paulo Hartung.

Nunca mencionei isso daí ao Rogério. Comecei a relaxar - sem gozar, porque tava puto dentro dos meus panos - e ele ligava pra dizer que os acessos à minha coluna tinham caído, que eu precisava bombar traveiz. Disse a ele quitava meiqui cansado, com preguiça, aí ele me sugeriu tirar um período de férias, o que fiz. 

Voltei, mas não consegui engrenar mais, pois o Stenka continuou a me encher o saco. 

E não me venham com essa hipocrisia sacrossanta de que estou falando de um morto, poxa. Tô falando pra justificar que estranhei um tempim atrás o Rogério Medeiros ter me olhado assim, fulminando, como se quisesse me dar uma porrada ou um tiro. Não entendi.

Ele me passou um imeil me acusando de coisas e falou besteira dimontão, pracaramba à beça. Eu refutei na hora, pois ele estava babando ódio pelos cantos dos beiço e falando do que não sabia. Mas, radical de primeira, não entendeu ou fez que não entendeu - se é que Alvaro falou com ele algo a respeito - e resolveu despejar seu ódio em cima de mim.

Depois, caiu a ficha. A gente tinha uma conversa reservada sobre um assunto que eu só conversei neste mundim di nossosinhô jesuscristo com o Álvaro Nazaré, que era o chefão comercial do saiti e a quem eu pedi que tocasse no assunto com Rogério. Com mais ninguém. Nem da minha família. Ninguém jamais soube do que se tratava. Nem sabe, até hoje.

Se alguém conseguiu chegar até esta linha aqui, que me releve. Estou com isso atravessado no gogó há bastante tempo. Só me lembro que no imeil que o Rogério miscreveu misculhambando eu encerrei dizendo:

- Você se levou por alguma coisa, entendeu mal, e me trata desse jeito. Me arrependo agora de ter sido o único jornalista que te defendeu naquele lendário episódio da "mala de dólares do Coronel Natali no sul do País".

Nunca mais nos falamos. Outro dia conversei com um filho dele, a quem relatei tudim. Ele estava pra se tornar 8.0, quinemqui se fala hoje pra supostamente esconder que se fez 80 anos.

Continuo engasgado pela tremenda injustiça que Rogério Medeiros cometeu comigo, mas deixo aí, sem espumar ódio, a homenagem ao jornalista combativo que sempre foi, ideologias à parte (Oswaldo Oleari).

 

Orlando Eller
é jornalista e poeta

Colaborador do 
Portal DOPC / Rádio CBM

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Álvaro José Silva

Belo texto mesmo.

Hilario Brandao

Caro Oleari; você conhece a história do "sapo e do escorpião" para atravessar o rio? É por ai. Um abraço

Don Oleari

kkkkk....mas meu prezado Hilário você bem que poderia escrever a fábula pra gente relembrar. Abração.

animes

Equeça o passado e vamos viver o presente que nos resta.


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