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André Lachini: Chineses dominam Zona Cerealista de São Paulo; Mercado Municipal completa 83 anos nesta segunda, 25

22 de janeiro de 2016
André Lachini
São Paulo

(Fotos: André Lachini)

Visitar o Mercado Municipal de São Paulo e a Zona Cerealista é entrar em um mundo antigo da capital paulista. 

A Zona Cerealista, que fica além do rio Tamanduateí, ainda é ocupada por atacadistas de alimentos, embora seu perfil esteja mudando de um entreposto de venda de legumes, cereais e verduras para um comércio mais especializado dos produtos. 

Comerciantes chineses estão se instalando na região. Os chineses não negociam alimentos, com exceção do alho. O negócio deles é eletrônicos, tênis, bugigangas e quinquilharias. 

- “Os chineses, ao contrário dos outros comerciantes, gostam de morar aqui na região (cerealista). Por isso estão comprando imóveis e até apartamentos novos”, diz um comerciante local que não quis ser identificado. 


As lojas dos chineses não ficam na Zona Cerealista, mas bem perto: atravessando o Rio Tamanduateí (foto) e a Avenida do Estado e passando o Mercado Municipal, começa o comércio dos chineses, que se estende até a Rua 25 de Março e Ladeira Porto Geral.

O que o comerciante disse é verdade. Impressiona a quantidade de chineses e chinesas que circulam não só na Rua 25 de Março e imediações, como também na Zona Cerealista. Algumas construtoras levantaram edifícios novos de apartamentos na região, além do Rio Tamanduateí. 

- “Vou te dizer: 90% dos moradores são chineses. E eles têm dinheiro. O comerciante brasileiro, atacadista, chega numa Kombi ou num carro velho. O chinês chega num SUV da Hyundai ou da Toyota”, diz o atacadista. 

Segundo ele, os chineses não entraram ainda no ramo atacadista de alimentos.
Muitos dos imóveis da Zona Cerealista estão arruinados ou precisam de restauro. Essa região da capital paulista foi ocupada no final do Século XIX, época das imigrações italiana, espanhola e portuguesa. 

O declínio começou em 1966, quando foi aberto o Entreposto Terminal São Paulo (ETSP), encampado em 1969 pela Companhia de Entrepostos de Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp). 
O ETSP, no bairro da Vila Leopoldina-Lapa, na Zona Oeste da capital paulista e ao lado da Marginal do Rio Pinheiros, rapidamente atraiu o comércio atacadista e tornou-se um dos maiores centros comerciais atacadistas do mundo. Com isso, começou o esvaziamento da antiga Zona Cerealista e também o declínio do Mercado Municipal, aberto em 1933. O Mercado só foi restaurado em 2004.

Visitar a Zona Cerealista é relativamente perigoso. Muitos assaltantes atuam na região e também trombadinhas. Por isso é bom o turista não atravessar a Avenida do Estado e o Rio Tamanduateí, que ficam atrás do Mercado Municipal de São Paulo. 


Imagem de 1933, ano da abertura do mercado

Inaugurado em 25 de janeiro de 1933, o “Mercadão”, como ainda é chamado pelos paulistanos, completará 83 anos na próxima segunda-feira, dia 25, quando São Paulo completa 462 anos. O “Mercadão” passou por uma reforma completa em 2004. Fachada e vitrais foram recuperados e foi construído um mezzanino, onde existem três restaurantes, uma área de eventos e uma praça de alimentação.

Centenas de comerciantes ocupam atualmente os 272 estandes (ou boxes) do mercado, nos ramos de açougue, empório, avícola, laticínios, padaria, mercearia, peixaria, quitanda e gourmet. No local o consumidor encontra uma variedade enorme de vinhos, azeites de oliva, cervejas, cachaças e outros destilados, carnes, frutas, ervas, temperos, queijos e outros produtos alimentícios. 

Se nas primeiras décadas do século passado o público do “Mercadão” era formado principalmente por donos de restaurantes que se abasteciam no local, hoje o público é bem mais diversificado. Além dos turistas, muitos paulistanos de passagem pelo local fazem compras.

Duas das especialidades de lá são o pastel de bacalhau e o sanduíche de mortadela do Bar do Mané (foto). 

O sanduíche de mortadela, feito com pão francês, leva realmente muita mortadela. Por isso só peça se estiver com fome. A porção é generosa e custa R$ 10 em média. 
Na Rua da Cantareira, existem algumas opções de alimentação relativamente boas e de preço menor. 

Uma delas é o Restaurante Ponto Árabe, de cozinha libanesa, onde um prato bem servido, contando uma garrafa de água mineral e um café expresso, sai por R$ 30. 

Embora os comerciantes de origem síria e libanesa fossem predominantes na região da Rua 25 de Março nos séculos XIX e XX, foram suplantados pelos chineses na área inteira. 

Dentro do Mercado, permanecem comerciantes brasileiros, a maioria de origem portuguesa, espanhola e italiana, bem como alguns nordestinos que chegaram nos anos 1960 e se destacaram no comércio.

O Mercado Municipal também é chamado de “Mercado da Cantareira” pelos paulistanos. Isso ocorre porque a entrada principal do mercado está na Rua da Cantareira. 

O acesso é fácil descendo da Estação São Bento do Metrô (saída pela Ladeira Porto Geral) e pela rua 25 de Março. Não é recomendado acessar o mercado a partir da Estação Brás do Metrô e da CPTM. Entrar no “Mercadão” significa encontrar produtos de qualidade que você não vai achar nos supermercados, embora custe um pouco mais caro. A visita também vale pela arquitetura do prédio. 

Projetado pelo arquiteto italiano Felisberto Ranzin (foto), o “Mercadão” levou oito anos para ser construído, a partir de 1925. 

Na época, o rio Tamanduateí ainda funcionava como uma via de transporte fluvial entre a capital paulista e os municípios vizinhos, de onde chegavam alimentos dos sítios e lavouras. A construção é uma mistura dos estilos neoclássico, neogótico e neobarroco. 
Foi usado concreto armado na obra. 

Os painéis de azulejos foram trazidos da Alemanha e da Bélgica e o mármore de Carrara, da Itália. Também foram instalados 55 vitrais importados da Alemanha. 

Ainda hoje o edifício impressiona, com seus 12,6 mil metros quadrados de área construída e o pé-direito com 16 metros de altura.

Na década de 1940, o rio Tamanduateí foi canalizado e deixou de ser usado como via de transporte fluvial, o que contribuiu para a sua degradação. 

O rio, que deságua no Tietê, virou um esgoto a céu aberto, ladeado nas duas margens pela Avenida do Estado e a linha de trem da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) que liga a capital aos municípios de São Caetano do Sul, Mauá e Santo André.

Da Rua Santa Rosa, no começo da Zona Cerealista, ainda é possível ter uma visão privilegiada do conjunto de prédios da São Paulo do começo do século passado, como o Palácio das Indústrias, construído em 1923 (foto).

O prédio abrigou durante anos a sede da Prefeitura paulistana, bem como o Mercado Municipal (André Lachini).



André Lachini
é jornalista e
tradutor de Italiano e Inglês

andrelachini@hotmail.com

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