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O Fusca da nossa memória: 70 anos de história - Velozes e Furiosos: André Lachini

5 de janeiro de 2016
Coluna "Velozes e Furiosos"

André Lachini,
de São Paulo 




Beetle alemão 1953 vinho - raridade de colecionador paulista

(Fotos: André Lachini)

O Fusca não é veloz e não é furioso. Então por que ele está nesta coluna Velozes e FuriososPorque quase todos os motoristas brasileiros com mais de 40 anos já dirigiram um Fusca. 

O Fusca no Brasil foi o primeiro carro popular de verdade. Para muitos brasileiros, o Volkswagen Sedã (esse é o nome original do carro) foi o primeiro automóvel, assim como o Fiat 500 foi para tantos italianos e argentinos. Foram fabricados no mundo 21,5 milhões de Fuscas entre 1946 e 2003. 

Desse total, 3,3 milhões o foram no Brasil, na primeira fábrica da Volkswagen do Brasil, em São Bernardo do Campo (SP), entre 1959 e 1996. 

A maioria dos Fuscas foi produzida na fábrica alemã da Volkswagen em Wolfsburg (Estado da Baixa Saxônia) entre 1946 e 1977: 15,5 milhões. 

Vocho mexicano 2003 - detalhe adesivo no vidro

No México, foram feitos 1,5 milhão de Fuscas, entre 1967 e 2003, na fábrica em Puebla. O Fusca mexicano é chamado de “Vocho”. 

Cito os Fuscas alemães e mexicanos, cujas fotos aparecem nesta matéria, aí ao lado. Vejam o registro do último Fusca fabricado no mundo, exato no México.

O Volkswagen Sedã também foi fabricado na Austrália e na África do Sul. Foi o quinto automóvel mais vendido no mundo.

Tudo começou em 1936, quando o ditador nazista Adolf Hitler pediu ao projetista de automóveis Ferdinand Porsche que fizesse um carro popular para os alemães. Hitler queria impressionar a Europa com a rede de autoestradas (Autoban) que havia construído. 

Porsche trabalhou em vários protótipos e em 1936 apresentou o “Carro do Povo” (Volks Wagen). A loucura do ditador nazista, que lançou o mundo na 2ª Guerra Mundial em 1939, impediu que o Fusca fosse produzido em escala industrial. 

Apenas centenas foram produzidos entre 1938 e 1941 e entregues ao Afrikan Korps, unidade da Wermacht que, ao lado da Itália, lutou contra os ingleses no Egito e na Líbia. 

Já era a versão igual ao Fusca que seria vendido no pós-guerra. Acabada a guerra e ocupada a Alemanha, a fábrica da Volks foi entregue aos ingleses. Só em 1946, há exatos 70 anos, o Fusca começou a ser produzido em escala industrial. 

O Beetle

Os americanos rapidamente reconheceram que o carro, embora pequeno, era resistente, capaz de suportar temperaturas extremas e de fácil manutenção. 


Painel do Beetle alemão 1953 verde 


A partir de 1949, a Volkswagen fechou seus primeiros contratos de exportação do VW sedã 1.200 para os Estados Unidos e o Reino Unido. 

A partir de então, o Beetle (outro dos nomes do Fusca) tornou-se relativamente comum na paisagem norte-americana. 

Até 1960, 300 mil Beetles alemães foram vendidos nos EUA. O número de Bettles vendidos nos Estados Unidos ultrapassou 2,5 milhões até 1977, quando o último WV Sedã foi produzido em Wolfsburg. 

Mas com o Plano Marshall a Alemanha deixava a recessão do pós-guerra em 1952 e o Fusca começou a ser muito vendido na própria Alemanha – e a partir de 1953, no Brasil. 

Os primeiros Fuscas chegaram a São Paulo desmontados, onde eram montados por operários em um galpão no bairro do Ipiranga, na zona sul da capital paulista. Esses Fuscas tinham dois vidros traseiros e não um vidro inteiro, que seria adotado em 1956 na Alemanha. O motor era de 1.200 cc, com 36 cavalos de potência e capaz de uma velocidade máxima de 110 quilômetros. 

O carro, por ser resistente e de manutenção barata e fácil, caiu rápido no gosto dos brasileiros. Seu único concorrente nos anos 1950 era o DKW Vemag, também produzido em São Paulo. 

Em 1958, uma marca norte-americana instalada na capital paulista, a Willys-Overland, começou a fabricar o Renault Dauphine, que também seria um concorrente do Fusca. 

Fusca brasileiro 1964:
traseira e placa

O Fusca brasileiro foi lançado em 1959, com índice de nacionalização de 54%. Esse índice passou rapidamente para 99% em 1964, quando o Fusca já era o carro mais produzido e vendido no Brasil. Em 1963, o Fusca brasileiro ganhou a 1ª marcha sincronizada, medidor do tanque de combustível no painel e limpador de para-brisas. 

O 1.300 cc e o Fuscão

Fusca brasileiro 
1.300 1972

Em 1967, foi lançado o Fusca com motor de 1.300 cc, elevando a potência para 38 cavalos. 

Já eram produzidos então 100 mil Fuscas por ano no país. 

Em 1970, foi atingida a marca de 1 milhão de Fuscas fabricados no Brasil. No mesmo ano, o carro passou por uma pequena mas perceptível reestilização no design: os pára-choques perderam adornos como garras e tubos, passando a exibir uma lâmina única. 

A reestilização também foi traseira, com o capô que cobre o motor ganhando uma nova forma, bem menos ovalada. Em 1972, foi lançado o Fusca com motor 1.500, de 44 cavalos, o chamado “Fuscão”. 
Todos esses motores eram refrigerados a ar. O recorde de vendas e produção se deu no Brasil em 1972, quando foram fabricados e vendidos mais de 220 mil Fuscas.                                                                                            


Beetle 1953 alemão, 
raridade com 
2 vidros na traseira

Uma das maiores coleções do Volkswagen Sedã é a do colecionador de carros Camillo Cristófaro, de São Paulo. A coleção de Cristófaro tem mais de 20 Fuscas, Beetles e Vochos. 

Tem dois Beetles 1953 alemães, um da cor vinho e outro verde. Ela tem vários fuscas brasileiros.
 
Prestei bem atenção num modelo ano 1964, ainda com motor 1.200 (foto à direita e o painel, abaixo à esquerda), bem como em um 1965 “pé-de-boi. 

Esses “pés-de-boi” foram os primeiros carros “populares” feitos no Brasil. Eram tão despojados que o porta-luvas não tinha nem tampa. 

O objetivo da ditadura militar e da indústria automotiva era motorizar os brasileiros, fabricando carros mais baratos. 

Porta-luvas do "pés-de-boi" não tinha nem tampa
Além da Volks, a Willys-Overland lançou sua versão “pé-de-boi” do  Gordini, e a Vemag do DKW. 

O “Cornowagen”

A coleção de Camillo Cristófaro tem Beetles conversíveis, fabricados na Alemanha e exportados aos Estados Unidos, como um carro azul. 

"Cornowagen" alemão azul 1965

A Volks tentou produzir Fuscas conversíveis no Brasil em 1965, mas logo abandonou a fabricação, quando os carros foram apelidados de “Cornowagen” pelos brasileiros. A coleção conta com um dos últimos Vochos produzidos no México em 2003.

Os verdadeiros concorrentes do Fusca no Brasil só começaram a chegar a partir de 1973: primeiro, o Chevette, lançado pela General Motors naquele ano, e o Fiat 147, que marcou a entrada da marca italiana no Brasil com a fábrica em Betim (MG) em 1976. 

As vendas do Fusca começaram a declinar. O carro ganhou uma versão a álcool combustível em 1980, depois do Fiat 147. Ganhou motor 1.600 refrigerado a ar, quando a maioria dos concorrentes já tinha motor refrigerado a água, como o Chevette. 

Fusca brasileiro 
Itamar 1996

Em 1986, a produção do Fusca foi encerrada no Brasil. O Gol, lançado em 1980, já era o carro mais vendido da Volkswagen e do país inteiro. 

O Fusca foi relançado no Brasil em 1993, uma ideia do então presidente Itamar Franco. Itamar zerou o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) dos automóveis com motores de até 1.000 centímetros cúbicos (os “1.0”). 

O Fusca, mesmo sendo 1.6, foi exceção. Entre 1993 e 1996, foram fabricados menos de 50 mil Fuscas “Itamar” em São Bernardo do Campo. Mesmo nesse nicho, o Gol Mil já havia ocupado espaço.

O primeiro Fusca a gente nunca esquece

Onde foi que dirigi meu Fusca? Foi em Vitória (ES). Meu avô, o dentista Alfonso Del Caro, tinha um Fusca 1.300 branco, ano 1971. 

Ele faleceu em 1980 e o carro ficou com a minha avó, que morava perto do Parque Moscoso. Acho que foi em 1989; estive em Vitória e dirigi o Fusca da minha avó até Vila Velha.

Fusca branco 1971. Era o modelo do Fusca que meu avô deixou para a minha avó

Que eu me lembre, ainda não existia a terceira ponte (*). Na época eu já tinha a minha CNH e havia aprendido a dirigir no Passat do meu pai. Por isso, estranhei o câmbio, uma alavanca fincada no chão do carro. Mesmo assim, o Fusca era fácil de guiar e manobrar. 

Me lembro do barulho do motor, você acelerava, ele dava um ronco choroso e o velocímetro marcava 20, 40, 60 quilômetros. Era quente, não tinha ventilação. Ar-condicionado então seria um sonho. Mas dava conta do recado. Fui até Vila Velha com meu pai e depois voltamos a Vitória, acho que pela segunda ponte. Aquele Fusca 1.300 modelo 1971 foi o Fusca da minha memória (André Lachini).

(*)  A previsão de término inicial era abril de 1980, mas a ponte Darci Castelo de Mendonça - Terceira Ponte - só foi inaugurada em 23 de agosto de 1989.

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Don Oleari

Por imeil, recebi um comentário do Rubens Pontes, que vou publicar aqui proximamente. O papo é tão bom que vou primeiro postar na primeirona do Portal DOPC, pois concordo integralmente com ela sobre o que se publicou a respeito do Fusca por estes dias, inclusive nos chamados grandes veículos.
Vejam lá o que Rubens Pontes diz a respeito da matéria do André Lachini, daqui a um tantim.

Don Oleari

Tá ai o linki para ler o delicioso comentário do Rubens Pontes sobre a excelente matéria,completíssima, do André Lachini.

Rubens Pontes para André Lachini: "o primeiro Fusca ninguém esquece...você esgotou o assunto"

http://nageral.donoleari.com.br/2016/01/rubens-pontes-para-andre-lachini-o.html

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