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Izabel Mendonça: vimos que nada tinha mudado na nossa terra; sempre é tempo de recomeçar

24 de fevereiro de 2016
Por Oswaldo Oleari
Fotos de Bruno Herculano

- Um vinho português chamado Alandra, eu comprava em Vitória no supermercado São José ou no Carone por R$ 45 reais. Aqui compro o mesmo vinho Alandra por € 1.50, é muita diferença".

- "O preço da passagem de ônibus aqui há três anos era € 1.80. Voltamos e o preço continua o mesmo".

Fotógrafo Bruno Herculano e jornalista Izabel Mendonça

Acompanho os dois desde sua estada anterior em Portugal. Foram inclusive correspondentes autorizados pelo Sindicato dos Jornalistas de Portugal. Acompanhei todos os seus três anos e alguma coisa em Vitória. Não demorou muito para perceber que eles estavam se cansando do mais do mesmo, pois voltaram à sua terra esperando por mais do que encontraram, na volta. Confiram aí perguntas respondidas pelos dois, Izabel e Bruno. 

- Portal DOPC - 1 - Sabidamente, depois de algum tempo de volta a Vitória/ES/Brasil, vocês começaram a sentir o desnível de vida e decidiram voltar a Portugal.


- Izabel Mendonça e Bruno Herculano - É, foi isso mesmo. Em Vitória, eu estou em casa, é claro. Perto da família, dos amigos, do nosso mundo. Mas, (sempre tem um mas...) eu confesso que andava meio cansada de ver pouca mudança em tudo. E quando digo tudo, digo na área da política, onde sempre atuei, e que acaba por interferir na educação, saúde, segurança, enfim, vendo o nosso país ser mal direcionado por este partido que apesar de não me representar, é quem governa o país, optamos por voltar à "civilização". Parece meio esnobe, mas na verdade não é. Aqui temos segurança, educação, a saúde pública funciona de verdade, existe mobilidade urbana, você convive diariamente com a cultura, com as artes, gente do mundo inteiro, e isso pra gente é aprendizado.


No lançamento do livro em Lisboa, representantes das embaixadas dos EUA e do Brasil, Fatima Ayres e Lucia Arruda, e o escritor luso brasileiro Roberto Bem



DOPV 2 - Nestes dois primeiros meses, vimos que foi tudo muito dubão, agradável, muita festa. Como foi o lançamento do livro em Lisboa? Deu nativos e deu brasileiros também?

IM e BH - A chegada é sempre boa, né? Deu para rever alguns amigos, matar as saudades de lugares que a gente sempre levou no coração. Fiz o primeiro lançamento, e deu cerca de 80 pessoas. O bom é que veio gente importante como escritores portugueses, representante do Consulado e da Embaixada do Brasil e dos Estados Unidos, jornalistas. Foi um evento bem bacana. No próximo dia 3 de março vou fazer outra apresentação na Casa da América Latina e no dia 19 de abril farei o lançamento na semana do Brasil em Portugal, em uma cidade chamada Belmonte. Recebi o convite da Câmara Municipal de Belmonte. Muito bacana.

DOPC 3 - Cumequitá o mercado de trabalho na nossa área em Lisboa?

Izabel Mendonça e Fernando Pessoa


IM e BH - Bom, penso que existe uma certa resistência com relação ao jornalista brasileiro, mas a gente vai superando. O convívio entre a classe portuguesa e brasileira não é muito estranho. Há fascínio e desconhecimento, folclore, preconceito, arrogância e admiração. O que a gente pensa do português, eles também pensam sobre nós e fazem igualmente as mesmas piadas sobre brasileiros. Nunca foi fácil pra mim, e Portal Don Oleari Ponto Com testemunhou isso na primeira vez que cá estive. De qualquer maneira, fiz contatos, conheci gente boa, importante, e consegui algum trabalho. Por agora, estamos com uma assessoria de imprensa, pois sinto um vácuo nesse nicho. Tem dado certo. E estamos trabalhando, é o que importa.

DOPC 4 - E o mercado de trabalho em geral?

IM e BH - Tem emprego, sim. Quem vem pra cá, tem que ter a consciência de que até se adaptar e conseguir ser legal no país, pode passar por situações embaraçosas. Todos temos que trabalhar, não é mesmo? A pessoa tem que entender que nem sempre vai conseguir emprego na área dela, e ai vai ter que fazer outros tipos de serviço que de repente não faria em seu pais de origem. Tem emprego em restaurantes, bares, para cuidadoras, corretor de imóveis, de seguro, vendedor de lojas, balconitas, etc. É como no Brasil. Agora se a pessoa chegar com o diploma embaixo do braço e alguns contactos com certeza vai conseguir com mais facilidade atuar no seu meio. É necessário disposição para procurar. A vantagem que vejo é que o português gosta do brasileiro. E isso ajuda muito.

DOPC 5 - Pelo que você e Bruno têm observado, como está o custo de vida em Lisboa? Façam uma comparação com o que deixaram aqui...

IM e BH - Essa é a parte que eu mais gosto, porque quando vou ao supermercado aqui, lembro que eu gastava muito mais aí no Brasil do que gasto aqui. Custo de vida é um conceito e, como tal, define-se pela soma dos preços pagos pelos diversos bens e serviços que são consumidos pelas pessoas. E, hoje em dia, isso tudo é bastante relativo porque envolve, também, as crenças e os valores dos "consumidores". Por exemplo, há quem não se importe em comprar uma roupa usada numa feira de rua mas existem pessoas que dão valor e só compram roupas com etiquetas de marcas famosas.
Eu vejo muitas pessoas perguntando se com 500 euros, 1000 euros ou outras quantias, dá para viver em Portugal. E a resposta é: depende...
Depende do seu tipo de consumo, de quantas pessoas irão depender da quantia disponível, em que bairro/município vão querer viver, etc. É uma questão muito relativa porque cada pessoa tem as suas necessidades, os seus desejos e as suas expectativas. Uma quantia que dá para uma pessoa e/ou família viver pode não dar para outras pessoas.


Bruno Herculano trabalhando


Para se ter uma ideia, eu comprava em Vitória, no supermercado São José ou no Carone, um vinho português chamado Alandra que era vendido a R$ 45 reais. Compro o mesmo aqui por €1.50, é muita diferença. Um cafezinho expresso que tomava na padaria Tutti Panne na Praia do Canto custava R$ 4,00, aqui ele custa €0,50 (cêntimos), já pensou o que é isto? O preço da passagem de ônibus aqui há três anos era de €1.80, eu voltei e o preço continua o mesmo. O galão de 5 litros de água é €0,60 (cêntimos), então, não acho as coisas caras por aqui.

DOPC 6 - Vocês vão trabalhar como free lancers ou vão estabelecer uma birosca - ou serão empregados de alguma outra?

IM e BH - A gente montou uma pequena empresa de Assessoria de Imprensa, a Connect Assessoria e Comunicação Integrada, inclusive tem uma coleguinha de Vitória chegando agora em março para trabalhar com a gente...Está dando certo, graças ao Pai.


Izabel com a família no lançamento do livro em Vitória/ES


DOPC 7 - Comentem algo que lhes ocorra, além das perguntinhas aí...

IM e BH - Olha, meu amigo, eu gostava de viver no meu país, sabe? Assim estaria perto dos meus. No entanto, infelizmente, nos meus 43 anos de vida, vi pouca coisa mudar. Trabalhava na Assembleia Legislativa, tive o prazer de conhecer (POUCOS) políticos que fazem a boa política, e não essa pilantragem que a gente vê Brasil afora. Foram quase 15 anos atuando na área da política (incuindo a fase anterior a Portugal). conheci gente de bem, gente honesta, que tinha interesse de que o país, o nosso Estado melhorasse de verdade, mas, também conheci pilantras, gente que "pregava" uma coisa e vivia outra. Estava muito cansada dessa ladainha, e ouvir falar em mudança, e de ver que essa mudança nunca chegava. Então, eu e Bruno decidimos vir embora. O livro "Lisboa com Afeto" abriu muitas portas pra mim dessa vez. É muito interessante observar o comportamento dos portugueses quando a gente mostra o nosso material. Aqui o clima é bom, os poucos amigos são legais, fiéis, e o melhor é que posso dar esse tempo pra mim, e ficar de fora da política, porque estava começando a me deprimir. 

Énois com as jornalistas Izabel Mendonça e Lena Mara Leite Gomes, no lançamento em Vitória/ES

Queria aproveitar este espaço (se você me permitir), para dar um recado, ou um conselho: é que as pessoas sejam menos conformistas com a vida. Que acreditem em seus sonhos, em seus desejos. 

O mundo flui quando a gente segue em frente, é como se houvesse uma conspiração a nosso favor. Às vezes a gente acha que tá bem, tá ganhando legal, mas no íntimo não está satisfeito. Então, o que fazer? Mude! Acredite. Sempre é tempo para recomeçar novamente.

Oswaldo Oleari
é jornalista/radialista/publicitário

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