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Altair Malacarne: Estiagem no Espírito Santo

16 de maio de 2016
...O texto do professor Altair Malacarne levanta muitas questões sobre o tema. Peguei o embalo, pois nesta segunda publiquei também sobre o mesmo tema o artigo - o segundo - do jornalista Uchôa de Mendonça. É coisa pra ler e matutá (Oswaldo Oleari) 






O Espírito Santo tem ciclos de enchentes e estiagens; estas são mais fortes ao norte do rio Doce, área já incluída oficialmente para receber os benefícios governamentais do Nordeste brasileiro.

Diz-se que esse flagelo teria origem na derrubada das matas efetuada na época da colonização; essa afirmativa não bate com a história meteorológica da região nem com os conceitos científicos conhecidos sobre as precipitações pluviométricas; estas podem ter 3 causas já definidas:
1) Frentes frias e quentes;
2) Características orográficas
3) Ventos marítimos

As frentes frias e quentes saem do Polo Sul, da Cordilheira dos Andes, do Oceano Pacífico e da luz solar e são causadoras dos extremos da virada de ano; na primavera/verão se enchem os leitos d’água e as conchas lacustres; como diz o povo, ‘Natal, ou seca a fonte ou leva a ponte’; as matas do passado tinham a função de regulagem na retenção das águas e sua lenta liberação no meio ambiente; na sua falta, as águas agora escorrem rápidas e violentas; para reverter o dano, há que se implementar medidas agronômicas, penso.

Já as variações de relevo e os ventos marítimos são causas de chuvas leves e regionais, e aqui se pode notar que as matas são o fator de desnível climático causador dessa chuva leve e local ; além da função de válvula das aguas pesadas.

Sobre nossa memória meteorológica, apodemos apontar 4 registros de seca quando ainda havia fartura de matas no estado, especialmente ao norte.

O 1º diz duma estiagem causticante havida no ano de 1769, só debelada com as preces à Virgem da Penha.

O 2º está no texto a seguir:
‘Enfrentando séria crise econômica nos primeiros anos da década de 1820, ocasionada pelo estrangulamento da produção agrícola em razão de prolongada estiagem, o governo provincial iniciou a cultura cafeeira. Para tanto, incentivou o aproveitamento de terras por colonos estrangeiros, o que se deu simultaneamente à chegada de fazendeiros fluminenses, mineiros e paulistas. A exemplo das demais províncias do sul, no Espírito Santo essa experiência colonizadora baseou-se na pequena propriedade agrícola, que logo se estendeu ao longo da zona serrana central, contrastando com áreas do sul daquela região, onde predominava a grande propriedade.’

(FONTE: ENCICLOPÉDIA MIRADOR INTERNACIONAL. VOLUME 8, São Paulo, 1975, Páginas 4171 a 4175).

O 3º é uma foto tirada em 1909 por Walter Garbe, na beira do rio Doce em Colatina; esta foto mostras vários bancos de areia no leito do rio.

O 4º é uma carta que o agrimensor JOSÉ MIRABEAU FERNANDES CALMON enviou a Bertolo Malacarne, a 2 de novembro de 1927, informando que tinha paralisado as medições ‘POR TER SECADO TODOS OS CORREGOS, FICANDO COM AGUA SO O S. JOSÉ’; o original da carta se acha no Arquivo Público do Espírito Santo.

ÁGUA

Penso que as providências para enfrentamento dos danos da estiagem devem fazer parte dos programas dos governos estadual e municipais do estado; trata-se de uma realidade definitiva; como a educação, a produção, a comunicação e outros, a água é uma necessidade absoluta para uma vida digna; breve virão as chuvas pesadas de fim de ano e esqueceremos, como o marinheiro da piada, que vivemos num polígono de enchentes e secas intermitentes e temos que aprender a viver com a estiagem; queremos estradas, escolas, energia, hospitais e a água é esquecida; um programa massivo e prioritário de represas e caixas-secas - guardado o respeito ao ambiente - poderia ser um bom começo; um professor nordestino está dirigindo um programa de construção de represas em cima das lajes das pedras; isso poderia ter um impacto muito grande em nossa agropecuária; e o projeto deveria contemplar outras providências; seria um dinheiro bem gasto, s.m.j.

Hoje moramos num lugar onde havia matas; elas funcionavam como uma válvula esponjosa, que absorvia as chuvas e ia liberando lentamente; se elas, as águas, escorrem velozmente e torrenciais para os córregos, rios e mar em pouco tempo; estiagens e enchentes cíclicas tendem a ser mais acentuadas que no passado, e elas certamente ocorrerão; temos que torná-las menos danosas, manejando-as bem; devemos e podemos.

Observa-se nos pronunciamentos e reportagens referentes ao assunto certo grau de superficialidade, uma vez que se apontam como causas da intempérie os equívocos (e são muitos) cometidos na colonização e exploração atual de nosso solo; na verdade, está provado hoje que o fenômeno ‘el-nino’ é o grande motor mundial dos nossos e alheios desequilíbrios climáticos cíclicos; a partir de uma conscientização holística dessa realidade, devemos e podemos – graças à parafernália tecnológica hoje disponível - arrostar esse destempero, que está incomodando e prejudicando a nossa coletividade (Altair Malacarne).





Altair Malacarne 
é professor,
historiador

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