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Rubens Pontes: A tocaia - Conto retirado do livro Alvinópolis e Literatura – Antologia de 1973, de autoria do José Afrânio Moreira Duarte

3 de maio de 2016
A tocaia



Trabalho classificado em primeiro lugar no Concurso Permanente de Contos da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte em 1973.



Então, Maria, está combinado?
- Não sei, respondeu ela com um dar de ombros indeciso.
- Nesse caso, ficamos assim: - você fica morando aqui mesmo, mas não vai aos bailes do “Puxa Faca”. Está bem desse jeito?
- Não sei... repetiu a Maria, com expressão de desalento e cansaço.

Corisco, recostado à cadeira, com os olhos bambos da meia embriaguez, não percebia as piscadelas ariscas e os gestos da Chica Baiana, a velha dona da pensão, que lhe fazia sinal para não aceitar as propostas do João Corisco.

Percebendo que o homem voltava pela terceira vez, insistindo em suas propostas, aproximou-se para salvar o embaraço crescente da noviça:
- Venha cá, minha filha. Você deve estar muito cansada. Vou preparar alguma coisa, que já são horas de tirar o orvalho do queixo.
Maria se levantou, muito sem jeito, e acompanhou a dona da casa.

A velha baiana, experimentada e vivida, conduziu a moça para o quarto melhor da casa e, até mesmo antes de perguntar sobre sua vida, ministrou os primeiros conselhos para os novos rumos do seu destino.
- Minha filha, não caia na bobagem de se prender a ninguém. Isso de ficar para sempre amarrada a um homem, só casando. E, assim mesmo, Deus sabe o quanto custa esse juramento. Não se deixe prender a troco de nada. Já que você perdeu tudo, deve conservar a única coisa que vale nesta vida - a liberdade. Agora, volte para a mesa. Se o Corisco insistir, diga que precisa pensar. Mas não ponha o pé na peia.

A Chica Baiana, agora murcha e acabada, foi por muito tempo a mulher fatal daquelas redondezas. Embriagada de mocidade e alegria, cortejada e querida, deixara-se levar por ilusões fáceis e, por alongar demais as suas noites, muito encurtara seus dias de juventude.

De repente, estava envelhecida 'e sozinha. Mas, em vez de sustentar a luta surda e inglória contra os estragos do tempo, aceitou sem grande amargura a realidade.


Enquanto havia tempo, alugara a pensão onde passara seus melhores anos e vivia agora de estranha simbiose, associando sua experiência à juventude das noviças que a vinham suceder na ronda dos anos.

Maria Cabrita, que acabava de chegar à sua casa, com o vestido do corpo e uns pobres trapos amarrados numa pequena trouxa, era uma das muitas que se engajavam na multidão sombria das marginais, essas criaturas que existem, amam e sofrem, mas que o mundo finge ignorar.

Criada desde pequenina pelos donos de uma fazenda próxima, desde quando perdera os pais, crescera ao Deus-dará, sem carinho e sem amor. Trabalhava no pesado, fazendo milho até altas horas da noite, chegando ao moinho antes do sol, para recolher o fubá dos leitões.

Bem que a pobre menina merecia um destino melhor. Mas havia na casa duas mocinhas, mais ou menos da mesma idade, filhas do patrão, e era preciso evitar confusões embaraçosas, que podiam ferir o orgulho de D. Amélia. Só por força desse pequeno azar, a menina era tratada com rispidez e severidade.
O apelido de Cabrita - porque era um pouco mais fechada de cor - tinha origem na preocupação de d. Amélia em grifar bem as diferenças de condição.
Maria tinha os olhos verdes e enormes. E esses olhos, que podiam fazer sua felicidade ou sua desgraça. Acabaram arrastando a pobrezinha por este último caminho.

Ninguém sabia de nada, até o dia em que um moço da fazenda, que estava pescando no poço do moinho, ouviu ranger a porta e, espreitando, escondido nas bananeiras, viu bem distintamente dois vultos que se esgueiravam na semi-escuridão da noite .

Daí até sua fuga, quase de mãos vazias, foi coisa de uma semana. Uma semana que lhe pareceu eterna, sob olhares de malícia, cochichos e indiretas que falavam claramente de seu amor e de seu pecado.

Naquela noite, a noviça não apareceu na sala principal da pensão, onde mulheres e homens fumavam e bebiam. A vila inteira sabia da novidade e a casa estava cheia de homens ardendo em curiosidade para ver a Cabrita.
A dona da pensão, raposa velha, encontrava desculpas, as mais várias, para não deixar aquela lebrezinha inocente cair no covil dos lobos.

- Está morta de doente. Andou fugida no mato. Perdeu-se no caminho e chegou arrebentada de fome e de canseira...

A verdade é que a moça precisava aprender muita coisa, antes de entrar naquele caminho sem retorno daquela vida. Estava muito inclinada a aceitar o primeiro amparo que se oferecia e bem que aquele Corisco agradava
as suas simpatias.

Mas a Baiana martelava os conselhos da sua experiência:

- Escute, minha filha. O João Corisco é muito bom de coração. É mão aberta e não faz conta de nada. Mas é jogador. Hoje, tem dinheiro, para gastar com champanha; amanhã, não tem para o cigarro. E quem faz jogo com a vida, acaba como eu. A mulher só tem um trunfo e precisa aproveitar bem a jogada. Enquanto você for nova e bonita, não falta nada. Mas isso acaba antes da vida, quando é muito tarde para o arrependimento. Se você tiver um bom companheiro, pode viver muito bem. Mas não se engane, minha filha, na hora em que você mais precisar dele, é certo o abandono. E então você não terá a menor esperança. Enquanto muitos a querem, todos terão empenho em a disputar. No dia em que você se entregar sem reservas, conquistada para sempre, não terá mais que o feijão e a roupa. É isso mesmo, com muita medida e parcimônia. . .


Na noite seguinte, a novata entrou no salão, sob uma chuva de olhares famintos.
A Chica Baiana foi direito à mesa do que bebia sozinho, o Raimundão, que parecia querer apagar uma grande amargura.
Sentou-se à sua esquerda, para deixar vaga uma cadeira bem defronte do freguês. Tudo pareceu natural e desestudado, mas não passava de uma cena ensaiada pela manhosa patroa daquele rebanho de ovelhas desgarradas. Em poucos minutos, era chamada e saia, pedindo desculpas, deixando sozinha a noviça.

- Então? É você a morena de olhos verdes?
O homem não fez rodeios. Disse que morava retirado e vinha à vila todas as sextas-feiras, para espairecer. Deu a entender que era infeliz e precisava de uma porta de fuga para suas atribulações. Não pedia muito. Apenas que não fizessem troça dele. Confessou, com suas maneiras de homem rude, habituado ao trato da terra, a sua simpatia pelos olhos verdes da mocinha. Disse tudo que podia fazer por ela e tudo que esperava receber. Não queria mulher nem muito escrava, nem muito livre. Nem só dele, nem de todo mundo.

A noviça, num golpe de intuição, que é a ciência inata de todas as mulheres, compreendeu de relance que aquele homem era a isca para acender a fogueira das disputas.

Não demorou muito, confirmaram-se suas intimas suspeitas.
Aproveitando um instante em que o Raimundão se afastara da mesa, a industriosa Baiana passou por perto e lhe mandou, 'num piscar de olhos, uma mensagem que dizia tudo.

Maria, ingênua e simples, sem ter percebido ainda toda a extensão de seu novo mundo, sob a influência, ainda, de hábitos antigos, chamou de senhora à velha decaida, para lhe dizer, com simplicidade e doçura:

- Senhora é danada de esperta, heim, D. Chica?

Lá pela uma hora da madrugada, entrava sozinho o João Corisco.
Vinha do Bar do Vié, de uma roda de pôquer, e só mesmo a paixão cega pelo jogo poderia explicar tão grande atraso, quando seu desejo o empurrava na direção de Maria Cabrita, desde aquele primeiro encontro ocasional e inesperado.

Vinha de uma noitada feliz, com os bolsos cheios de notas amarrotadas. Dinheiro de vento, que passava por suas mãos apenas de visita. Arrumar as notas em carteira, seria perder tempo .

Ao dar com os olhos na Maria e vendo-a na mesa do Raimundão uma expressão quase sombria cobriu-lhe o rosto.

Correu o olhar em torno, escolheu uma mesa vazia e virou o espaldar das cadeiras restantes, como a dizer que desejava estar só e que esperava companhia.

Pediu uma cerveja, que ia sorvendo sem prazer. De vez em quando, olhava disfarçadamente para a mesa da Cabrita e seus olhos desferiam lampejos de fogo, com revérbero de aço.
O salão ia-se esvaziando, à medida que os casais se recolhiam tontos de sono e de bebida.
Raimundão não pôde ficar, naquela noite. Não podia romper de repente suas ligações antigas, sobretudo porque seus filhos frequentavam a escola da vila e eles não tinham culpa da sua tragédia doméstica. Precisava guardar as aparências e por isso voltava sempre à fazenda antes do amanhecer.

Quando a moça ficou sozinha, correu para junto da dona da casa. Não sabia dar um passo, dizer uma palavra, sem o comando invisível ,dos olhos da Baiana que falavam uma linguagem misteriosa, só entendida pelas mulheres. A Maria era uma boneca movida pelos fios invisíveis daqueles olhos enigmáticos.

- O Corisco está esperando.



A Cabrita obedeceu de pronto. Encaminhou-se como um autômato para a mesa do homem. Demorou-se apenas o tempo de entender a mensagem secreta que lhe dizia - “Não seja boba. Aproveite".
Pediu licença para sentar-se, como na velha casa da fazenda, à hora do jantar. E enquanto o Corisco permanecia calado, no seu amuo de ofendido, Maria pensava coisas estranhas.
D. Amélia, que parecia lhe querer tanto bem, sempre a tratava com severidade, muitas vezes cruel. E aquela mulher, estranha à sua vida e ao seu passado, que nada lhe podia oferecer senão apontar-lhe os caminhos mais tristes, era assim tão dedicada na sua devoção quase enternecida.

Bem que se diz que os caminhos do inferno são cobertos de flores.
Maria foi arrancada desses pensamentos, quase sem susto, pelo tilintar do copo na garrafa, pedindo outra cerveja.
- Foi o Raimundão que deu a você esse vestido mortalha?
- Não, Corisco. Foi d. Chica que me emprestou.
- D. Chica? Ah! Ah! Ah!, disparou o João, numa gargalhada sonora e comprida, em que se abria pela primeira vez naquela noite. Pois vai dizer à sua “Dona” Chica que você não precisa de esmola. Tome! Amanhã,mande fazer uma roupa decente.

Os olhos da pobre menina se esbugalharam de espanto. A nota amarfanhada que o Corisco jogava como papel inútil era um conto de réis! Mil cruzeiros! Teve até medo de pegar no dinheiro, mas lembrou-se da piscadela da Baiana: “Não seja boba. Aproveite”.

Quando Raimundão voltou, na semana seguinte, a menina era outra. Mostrava seu vestido de seda, coquete e feminil.
O homem se transtornou visivelmente. Aquilo era afronta do Corisco, aquele perdido, beberrão e jogador.

- Esse pano é bom mesmo, heim, Maria? - perguntou o Raimundão sublinhando as palavras com rancor.

E, sem dizer palavra, puxou com violência o decote e, antes que a Maria se voltasse da surpresa, ouviu do companheiro que lhe apresentava com desprezo um punhado de notas:
- Tome. Compre três vestidos mais bonitos do que este!
As represálias foram-se sucedendo, cada vez mais agressivas, de lado a lado. Os dois homens se insultavam e se ofendiam, insuflados pela velha Chica Baiana, que não via a inimizade passar muito além dos limites
de uma simples rivalidade de machos.

O Corisco andava agora numa onda de azar e não podia cobrir os lances daquele estranho leilão, A cada noite que sonhava desforrar os desfalques da véspera, se arruinava ainda mais.

Já não tinha relógio, anéis e as próprias roupas iam sendo engolidas no sorvedoiro do pano verde. Começava a ser evitado pelos parceiros, que às
vezes lhe deixavam ficha para arriscar a sorte.

E, afinal, chegou a noite temida por um jogador - não teve quem lhe pagasse o jantar e o dono do botequim lhe fechava o crédito. Por desgraça, aquela noite era sexta-feira.

Pela madrugada, o Raimundão voltaria à fazenda, dormitando sobre a sela do seu burro queimado .O demônio soprou-lhe esse pensamento e o despeito fez o resto.


Que tinha ele a perder? Nada. Desgarrado no mundo, quase sem família, era um número a mais no quadro dos viventes.
Também o Raimundo pouca falta fazia. Tinha estado, família, mas tudo encoberto por uma legenda obscura de crimes, de assalto e de morte. Contava-se como certo que começara a vida assassinando o sócio, de volta de São Paulo, onde venderam uma partida de gado.

Além de tudo, a vila de Estrela era um pedaço de terra ignorado na vastidão do mundo. Tudo ali morria ao fim de uma semana.
Todos sabiam que ele perdera no jogo os últimos trastes de sua propriedade; na derradeira cartada, perdera justamente o revólver Colt, calibre 38, última coisa que poderia arriscar no pano da esperança.
Mais uma vez, o diabo segredou-lhe que ninguém poderia distinguir entre a bala 38 de um revólver e a 380 de uma garrucha velha de que só agora se lembrava de estar guardada no fundo da canastra, envenenada de ferrugem.
Movido pela corda desses pensamentos sinistros, meia hora depois estava o Corisco numa curva da estrada, disfarçado entre ramos, à esquerda da porteira. Apontou muitas vezes a arma, exercitando os nervos e a pontaria. E ali se demorou, quieto como uma sombra, ouvindo o bater coração.

Devia pensar agora na maneira de afastar de si qualquer suspeita. Depois de tudo, deveria chegar em casa sem ser visto por ninguém. No dia seguinte se levantaria à hora habitual e não fugiria à rotina de sempre. Com certeza, muita gente iria ver o corpo do Raimundão, estirado de bruços no caminho, com a boca cheia de formigas. Se todo mundo fosse, ele, também, deveria comparecer à romaria, mostrar o mesmo pesar, acompanhando a ladainha das lamentações:
- Coitado do Raimundão! '

Nenhuma alusão ao seu passado, porque os mortos não têm defeitos.
A antevisão desse quadro causou-lhe um primeiro arrepio: um repelão incômodo que pareceu estremecer todo seu corpo.
Sobretudo, não poderia sair da vila e deveria chegar à porta quando passasse o enterro, pois morava no caminho do cemitério e tinha o hábito de ver passar os cortejos .

A lembrança do caixão levado pelas mãos amigas, causou-lhe novo estremecimento: um mal-estar indefinido, outra vez aquela coisa subindo pelo corpo até à sensação de que os cabelos cresciam sob o chapéu.

E ia repassando assim a seqüência das cenas. As vezes, tentava sacudir esses pensamentos, mas parecia arrastado por eles. E, nessa ordem de idéias, via pela primeira vez a mulher do Raimundão em luto fechado, acompanhada de três ou quatro crianças, indo à igreja para a missa de sétimo dia.
Perdido no mundo fantasmagórico dessas visões, foi sacudido por um frêmito de susto. Ferindo silêncio da noite, o sino da igreja começava a contar, pausadamente, doze badaladas.

O Corisco, como que acordado de um longo pesadelo, atirou longe a garrucha velha e se encaminhou para a vila.
E por causa de quê? - pensava ele. De uma mulatinha vulgar! Não! A Cabrita não teria essa glória. O mundo está cheio de mulheres .

Ao entrar no coração da vila, o Corisco, ainda havia pouco tão temeroso de ser pressentido, esforçava se por encontrar alguém que o visse passar àquela hora. Mas não havia ninguém no deserto das ruas silenciosas. Assoviava alto, quase sem perceber, alegre como um passarinho.

Quando procurava no bolso a chave de sua porta, ainda olhou para todos os lados. Mas não viu alma viva, àquela hora da madrugada.

De repente, um estampido seco de tiro e o Corisco tombou cambaleante no esforço de encostar-se à parede.
Antes de morrer, ainda distinguiu o vulto que se afastava, correndo, e ouviu o tropel distante de animal a galope.

Muitos anos depois, quando um homem era entregue pelas mãos da morte à justiça de Deus, se esclareceu o mistério antigo da tocaia.
Era o Raimundão que naquela mesma noite espreitava na sombra a volta do Corisco .

Maria Cabrita não chegou a viver para a glória de saber que aquele homem de mão aberta e generoso de coração, antes de matar, morria por sua causa...


RUBENS PONTES

O Dr. Rubens da Silva Pontes, filho do Dr. José Piedade da Silva Pontes, médico, e de D. Edith Barros Pontes, nasceu em Alvinópolis, no dia 14 de dezembro de 1922.

Em 1946 bacharelou-se pela Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais. Tomou-se figura de grande projeção nos meios jornalísticos de Belo Horizonte. 

Ocupou altos postos na “Folha de Minas”, tendo sido apontado como o “melhor do ano", no seu setor de atividades, durante cerca de uma década. 

Posteriormente, trabalhou no “Diário de Minas”, “Estado de Minas" e “Diário da Tarde". Na TV Itacolomi, ocupou os cargos de supervisor de programação, diretor-comercial e diretor-geral. Mais tarde, exerceu funções análogas na TV Belo Horizonte e na TV Vila Rica.

Juntamente com Fábio Campos Mota e Cid Rebelo Horta, fundou a Revista “Vida Industrial", na Federação das Indústrias, publicação essa de que foi diretor. Participou, também, da direção do Sindicato dos Jornalistas Profissionais e da Associação Mineira de Propaganda. Em 1970, assumiu a gerência de Relações Públicas das Listas Telefônicas Brasileiras, para Minas Gerais e Brasília.

Contista e poeta de muitos méritos. Rubens Pontes teve alguns contos premiados em concursos e viu poemas seus incluídos em antologias, inclusive em “A MULHER NA POESIA DO BRASIL", organizada por Da Costa Santos.

Como jornalista, fez estágio nos Estados Unidos, México e Itália.

Pitaco do Oleari

Como se vê, tudo o que digo do Rubens Pontes é sempre muito menos do que o seu riquíssimo perfil profissional.

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