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Fábio Márcio Bisi Zorzal - Secas, enchentes e enxurradas: o ciclo hidrológico ao extremo

21 de outubro de 2016

Quem não se lembra das chuvas intensas de 2013? De lá para cá parece que as chuvas caíram menos, mas elas voltarão! 



Esse foi um fenômeno dramático que pode se repetir sem qualquer aviso especialmente quando se considera o despreparo do longo prazo. Embora a ciência se coloque em liturgia perseverante de sua previsão, o que será destes próximos dias?

Envolto em métodos sofisticados, é possível estabelecer com alguma segurança que ela possa acontecer, sendo o tempo mais próximo o menos casuísta! Sobre chuvas temos algum conhecimento; tempestades e furacões nem tanto! O que importa deles todos, no entanto, é o seu efeito sobre a superfície, que nos afeta de forma distinta seja em sua escassez tratada no íntimo da seca a exemplo do que hoje padecemos, mas também em seu extremo oposto, relembre-se daquele tempo recente. Sem tom de praguejar, ela virá este ano, quem sabe?

Estamos despreparados para ambos, seca e chuvas, de qualquer proporção! No entanto, a experiência entreaberta nestes dois extremos é drama que a engenharia de recursos hídricos consegue responder, desde que haja espaço para isso. Dilemas urbanos e rurais são colocados à prova de soluções de engenharia que antagonizam o cenário de caos iminente. Mas pasmem, não há tempo para grandes obras, menos ainda recursos neste país falido.

Então, parece ser mais um ano de graça emergencial, uma profecia que gestores parecem prever melhor que as chuvas, especialmente ao se locupletarem das realizações impróprias da boa gestão! O sistema parece ser moldado para isso! Grandes rios assolam cidades capixabas há décadas, lembro-me das águas subindo as margens irregularmente ocupadas ao largo do rio Itabapoana. Desapropriar ou embarreirar?

Os diques podem ser soluções razoáveis se estivéssemos na Holanda. Por aqui, imperioso não deixar mais tal ocupação acontecer, e paulatinamente substituir por parques lineares, onde prevalecem a criação de espaços destinados ao reflorestamento ciliar, abertura de caixas de detenção temporária dos canais naturais, repovoamento de animais, criação de áreas de lazer que inclua a socialização e estimule a economia (formal) dessas unidades tratadas como de conservação. Isso vale também para pequenos cursos d’água estabelecidos em bacias menores.

Neste momento, não posso deixar de me lembrar das comunidades à margem do córrego Areinha, desemboque do rio Formate, mas que poderia ser acomodado em tantos outros lugares que hoje são palco de dramáticos acontecimentos. A gestão pesa mais do que a infraestrutura, mesmos que os custos possam ser em enorme parte orçados com a iniciativa popular e rústica de baixo custo. Óbvio, que a gestão não pode morrer aí: é preciso formar curadores para essas áreas estarem sempre movimentadas.

Também não posso esquecer do córrego Pau D’Alho, que se avoluma em enxurradas que poderiam ser tratadas com sucessivas barreiras à montante das cidades que o sucede. Coisa simples, tais como bueiros rodoviários que sujeitam compasso do rio em áreas que possam ser alagadas e recuperadas após o fluxo inconsequente das grandes chuvas.

Se houver espaço para represas, preferencialmente a fio, com o devido estudo de impacto ambiental, estas também podem regrar os regimes hidrológicos servindo também ao abastecimento de água, fim mais nobre do que as contenções de cheias, ou mesmo a geração de energia elétrica com pequenas centrais hidrelétricas. Não nos esqueçamos da forte dependência que os capixabas têm da energia externa, mas esse é outro assunto que pode e deve receber tratativas mais nobres, veja a eólica, a solar, etc.

Veja ainda os municípios da Grande Vitória, que sofrem com escoamento precário de um relevo horizontal fortemente densificado e impermeabilizado. Dependentes de uma lógica própria dos investimentos, as soluções emergem com grande dependência da esfera Federal, pois são prevalentes de somas vultosas para um Estado que orbita entre o Sudeste e o Nordeste. Isso sem falar de uma política de fiscalização muito tímida, exercida sobre planos diretores municipais incoerentes com suas reais necessidades, afora a inexistência de um plano diretor de drenagem.

Parecem desconhecer da possibilidade de que os investimentos em drenagem são compatíveis com as concessionárias de saneamento que já operam em larga escala. Sou fortemente favorável às parcerias público-privadas, mas não somente para as empresas de grande porte. Fundos estaduais abertos ao público em geral operados a partir de cotas adquiridas podem ser uma forma de pequenos investidores da classe média aportarem seus recursos em destinos mais nobres. Isso é inclusão econômica em larga escala resolvendo problemas sociais.


Enquanto isso, estarei de olho no dia de Santa Luzia, famoso dentre os pescadores por estabelecer no imaginário popular que o tempo daquele dia será de todo o verão! Com essa crença, a serventia pode não se limitar aos peixes!

Fábio Márcio Bisi Zorzal, PhD
Auditor de Controle Externo no Tribunal de Contas do Espírito Santo, 
Professor de Hidrologia e Drenagem no Instituto Federal do Espírito Santo

Enviado pelo jornalista Orlando Eller

Nota da redação: devotos também fazem preces a São José - 19 de março - pedindo mais chuvas.

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