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Rubens Pontes: meu poema de sábado - Benson Naluli, do povo mbunda, da Zâmbia Ocidental, África

22 de outubro de 2016

Mapa: Zâmbia está ao lado de Angola, abaixo da Tanzânia

Pitaco do Oleari: 
Tristemente triste (no final).

- "Erudito e desbravador Oswaldo Oleare

- O nome do poeta é Benson Naluli, cego desde os 4 anos de idade.
Não tem memória da luz. Não tem conhecimento do sól. Conhece isso
pelo que lhe contam. O resto vê pela pele: o mundo é a temperatura; o sol é uma escala de calor; a noite uma gradação de arrepios;
as pessoas, um calibre de voz.

"Hoje o céu está limpo e a tarde vem por aí."

Benson Naluli pertence ao povo mbunda da Zâmbia Ocidental, uma das regiões mais sofridas da África, grupo que as autoridades do país teimam em expulsar de sua terra, centenas de milhares deles.

Miserável, negro, mirrado, cego, Benson compõe seus versos e os vende como canções que entoa acompanhadas com sua tosca viola.

Um caderno escolar contém alguns dos seus poemas, "Buk Yalipina ("Livro de Canções" , em lhosi), escrito por voluntários que o ouvem. Nele está inserido meu poema deste sábado.

Com profundo desalento,
Rubens".

Não tem título

Ontem, recebi uma carta do Governo da Zâmbia,
dizendo que todos os que não tivessem cartão de registro
nacional
têm de ser deportados.

- Não nos persigam como cães!

Agora têm de dizer a todo o povo de mbunda
que não tiver cartão de registro nacional que vão ser deportados.
Depois eles vão dormir no aeroporto
e amanhã serão levados de volta ao seu País.
Angola!

-Não nos persigam como cães!

Eles estão preocupados com o seu gado
Eles estão preocupados com as suas colheitas
também
árvores de kassava na floresta
finger malege na floresta
também.
Dentro do avião, eles carregam milho, sorgo e arroz
Digam-lhe que tudo o que eles carregaram vai ser vendido
e o dinheiro ficará com o Governo da Zâmbia.
Hoje vamos escoltar-vos, acompanhar-vos

- Não nos persigam como cães.

Benson Naluli

Pitaco do Oleari: Tristemente triste.

Espero sempre com certa ansiedade "meu poema de sábado", a retranca criada pelo prezado Rubens Pontes para mostrar seus achados do mundo da poesia.

Ansiedade por conta de imaginar se terei capacidade pra encontrar ilustrações à altura e fotos dos poetas escolhidos, capas de livros, por aí.

Demorei a editar - concluindo agora, às 12h46m minutos de sábado, 22 - porque ao abrir o gimeil com o escolhido do Rubens e ao ler de quem se tratava, foi como levar uma porrada certeira no meio das fuças.

Me entristeceu tanto que deixei pra editar "depois". E fui buscar junto ao nosso deus, pai, guia e mestre, o Gugou, informações e fotos do poeta.

Outra cacetada pela cara: não existem fotos do pobre poeta pobre, nem de sua tosca viola, feita de cordas de fio elétrico e uma esferográfica apertando as escalas.
É de chorar (Oswaldo Oleari).





rubens pontes
é jornalista,
poeta, escritor 
e mais um tanto

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