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Aqui Rubens Pontes: Meu poema de sábado - Passagem do ano, Carlos Drummond de Andrade

31 de dezembro de 2016
- "Rejuvenescido Oleare

Nós, afinal,  devemos escolher entre  o paradoxo de ficar mais velho quando o ano passa
a  ser novo, nos curvando diante de um calendário que somente uma parte do mundo
reconhece, ou nos decidindo, por exemplo, pelo calendário islâmico que nos aponta a chegada do ano 1437.

Há quem considere arbitrária a adoção de calendários como o nosso, gregoriano, decidido

e implantado pelo Papa mais por força religiosa do que científica. Por ele,  daqui a poucas horas

estaremos assistindo a pirotecnia dos fogos  iluminando os céus e nos dizendo que 2017 está começando.

Fôssemos nós adeptos das palavras do senhor Buda, e o ano seria 2560, 5776 para os hebraicos e 5170 para os indus-Kalli Yuga.

Pelo sim, pelo não, até porque o  
tempo passa indiferente  ao que 

façamos ou deixamos de fazer,
todos comemoramos 

jurando promessas, penitenciando-nos pelo que fizemos e 
principalmente pelo que deixamos de fazer.

Carlos Drumond de Andrade não nos deixa  alternativas com esse poema 

escolhido para 
minha leitura neste sábado carregado de interrogações. Dizer o que, depois dele?

Amanhã não é dia de tudo recomeçar?
Serena passagem. Rubens".



PASSAGEM DO ANO

Carlos Drumond de Andrade

O último dia do ano
Não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
E novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
Farás viagens e tantas celebrações
De aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia
E coral,

Que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
Os irreparáveis uivos
Do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
Não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
Onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
Uma mulher e seu pé,
Um corpo e sua memória,
Um olho e seu brilho,
Uma voz e seu eco.
E quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.

Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa, já se expirou, outras espreitam a morte,
Mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
E de copo na mão
Esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
O recurso da bola colorida,
O recurso de Kant e da poesia,
Todos eles... e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
Lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.




Rubens Pontes
é jornalista,
poeta, mineiro,
escritor, chef de cuisine,
pescador, bem humorado
e não lê só linki no 
feissibuqui




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