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Aqui Rubens Pontes - Meu poema de sábado - Águas de Março, Tom Jobim

11 de março de 2017

- "Vate Oswaldo Oleare,

No tempo de eu menino, chovia sempre de novembro a março, interrompidas
as águas no chamado veranico de janeiro para depois voltar a chover até fim do período.
As férias ginasianas me ilhavam em casa, no interior das Gerais, estimulando leitura nos livros de meu pai.

Olavo Bilac, considerado o "príncipe dos poetas parnasianos", era um dos autores
lido e relido e ainda hoje guardo de cor quase todo o longo poema "Caçador
de Esmeraldas", uma epopeia camoniana sobre a trágica aventura de Fernão Dias Paes Leme
na procura de esmeradas no sertão ainda virgem do Brasil colonial..

O que naquela época eu não podia naturalmente prever era
o fato de que, tanto tempo depois, seriam os versos iniciais do poema
"foi em março, ao findar das chuvas"
inspiração para Tom Jobim compor uma das mais importantes obras do cancioneiro
brasileiro.

Meu poema deste sábado, escolha aprovada pela Rádio Clube da Boa Música - www.donoleari.com.br - está contido na letra de
"Águas de Março", nomeada, em 2001, a melhor canção brasileira de todos os tempos
numa pesquisa promovida pela "Folha de São Paulo" entre 214 jornalistas, músicos e outros artistas.

Pena que as chuvas de março já não caem com a doçura dos velhos tempo.

Abraço,
Rubens".

Águas de Março

Tom Jobim

É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol
É peroba do campo, é o nó da madeira
Caingá, candeia, é o Matita Pereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira

É o vento ventando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumeeira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de atiradeira
É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão

É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto, o desgosto, é um pouco sozinho
É um estrepe, é um prego, é uma ponta, é um ponto
É um pingo pingando, é uma conta, é um conto
É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando
É a luz da manhã, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada

É o projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato, na luz da manhã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração

É uma cobra, é um pau, é João, é José
É um espinho na mão, é um corte no pé
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração

É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um belo horizonte, é uma febre terçã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração





Rubens Pontes

É



Pitaco do Oleari

"Águas de Março" é de 1972. Sua primeira gravação foi num compacto simples - Disco de Bolso - "O Tom de Jobim e o Tal de João Bosco". Falsa modéstia à parte, fui o primeiro produtor e apresentador de programas de rádio a rodar esse compacto do João Bosco, na Rádio Espírito Santo.
Depois saiu no LP Matita Perê, em 1973. Em 1974, saiu no LP Elis & Tom.

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