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Colatina ficou devendo uma homenagem à Rádio Espírito Santo em 1979, nas enchentes do Rio Doce - Diagonal

28 de março de 2017
Diagonal, coluna do Oleari


- "Colatina ficou devendo uma homenagem à Rádio Espírito Santo em 1979, nas enchentes do Rio Doce", disse eu certa vez numa palestra para alunos do Curso de Comunicação da Faesa.

E ficou memo.

Ao assumir a presidência da então Fundação Cultural do Espírito Santo, o ex-juiz, professor, folclorista e escritor Renato Costa Pacheco promoveu um seminário interno.

Na abertura, ele disse textualmente ressaltando o papel desempenhado pela Rádio Espírito Santo numa das maiores enchentes do Rio Doce, após a de 1945:

- "Foi um dos maiores eventos de reportagem do rádio brasileiro de todos os tempos".

Trem da Vitória a Minas parado em Aimorés/MG, durante a enchente.


E nós, os que estivemos envolvidos durante 12 dias ininterruptos, só então tivemos a dimensão de tudo o que havia acontecido naqueles dias.

Particularmente, entrei no estúdio num sábado por volta de 11 horas, quando estava sendo entrevistado o então Assessor de Imprensa da Escelsa, falando sobre a situação naquele momento, logo no início da cheia do Rio Doce, o rio da minha infância.

Passava pelo estúdio, decidi entrar e fazer mais algumas perguntas ao Assessor, que, acho, tinha o sobrenome Conde.

Só parei doze dias depois, quando perdi a fala por quatro dias.

Daquele momento em diante, Marcos José Lima, eu, Paulo Carneiro, escorados no excelente elenco do Departamento de Jornalismo e de Produção da RES, operamos 24 horas por dia, realizando um trabalho que somente o poderoso veículo rádio tinha condições técnicas de realizar.

Almoçávamos no estúdio e eu, nesses 12 dias, não dormia mais do que duas horas por dia.

Imagem da enchente em Governador Valadares

A Rádio Espírito Santo se tornou a Central de Operações de uma verdadeira praça de guerra, instalada logo em frente, nas instalações da Emescam, onde o médico e professor Carlos Faria organizava tudo.

Os outros veículos, rádios e tevês, recorriam à Rádio Espírito Santo e acho que até se tornaram extensão dela.

José Roberto Mignone, safo, pretendeu entrar em cadeia com a Rádio Espírito Santo.
O diretor comercial da TV Gazeta, Xerxes Gusmão Neto, ligava com frequência para repassar as demandas da região de Linhares, onde estava "ancorado" o então poderoso Chefão do Grupo Gazeta, Carlos Fernando Lindenbergh Filho, Carié.

Xerxes ligava:

- "Oleari, o Cariê pede pra você pedir a ida de barcos pra Linhares para ajudar no recolhimento de pessoas ilhadas".

Eu fazia o apelo.

Poucas horas depois, aparece na portaria um pessoal que queria falar comigo. Mandei entrar.
Era o economista José Fernando Dessaune com mais 5 pessoas para comunicar:

- Você solicitou e nós estamos indo pra Linhares com os barcos.

Caramba, era de chorar, mas a gente não tinha nem tempo pra isso. Eram milhares as demandas, gente, telefones de todos os lugares.

Surgiu uma solicitação pra levar uns medicamentos para São Silvano, do outro lado da cidade de Colatina. Logo surgiu um volutário pra levar os remédios.
Só fiquei sabendo que foi o Paulão do Cavaco - sambista da área - que mais dois amigos foram pralá. Chegaram em Colatiina, conseguiram atravessar sobre a ponte numa balsa providenciada pelos bombeiros.

Depois de tudo, num buteco, só éramos capazes de comentar:

- "Camarada, foi um trem de doido".

E foi. Foi um trem de doidos.

Danilo Souza, Victor Alen Magalhães, Lena Mara Leite Gomes, João Luiz Caser, quem mais, quem mais?
Ahhh, gente adoidado, Leonece Barros e Jonas Reis, no meio.
Certa tarde, eles vieram ao estúdio me dizer:

- Oleari, nós vamos a Colatina e vamos ver o que a gente pode contar de lá, da região".

Parei, olhei pra eles e disse: "rapaz, ceis tão doidos..."

Não deixaram eu terminar. Disseram.

- Você pode ficar tranquilo que nós vamos ter cuidado e só vamos fazer coisas com segurança.

Concordei. Foram. E atravessaram trechos de água com o gravador National de três quilos levantado sobre as cabeças "pra não molhar nossa ferramenta de trabalho".

Certa tarde, me liga o empresário Antenor Piana me convidando:

- Oleari, você está preso aí no estúdio e não tem ideia do que está acontecendo. Te convido pra gente fazer um vôo e só assim você vai ter a noção real de tudo. Mando te buscar aí, é só me falar.

Eu fui? Fui nada. Não deu pra sair.

Certa noite, coloquei o meu a prêmio. O Coronel Vlamir Coelho, então chefe da Defesa Civil do governo Élcio Alvares (foto), decidiu dar uma de "autoridade" e não autorizou a sair caminhões com roupas, alimentos, remédios para Colatina e região.

Dei uma de repórter maluco. Liguei pro Coronel Vlamir, coloquei-o no ar e comecei o papo:

- Coronel, estou checando se o senhor realmente deu a ordem para os caminhões não saírem daqui.

Ele confirmou a ordem.

Não aguentei e disse:

- Coronel Vlamir, então eu o responsabilizo publicamente pela ordem absurda e pelo socorro que as comunidades ilhadas de Colatina e região não vão receber.

Despedí-me do Coronel, desliguei o telefone e toca o barco porque aquilo ali era uma avalanche de coisas pra fazer, gente pra agender, coisas pra resolver iuiscambau.

Não se passaram muito minutos quando recebi a informação de que o governador Elcio Alvares dera ordem para os caminhões partirem.

O Coronel teve que me engolir - pensei eu, antecipando-me ao Zagalo na sua célebre frase.

Numa tarde, um telefonema da então poderosa Chefe da Casa Civil de Elcio, Mariazinha Velloso Lucas me surpreendeu.

Ela me disse: 

- "Preciso conversar com você. Vou mandar um carro aí, você bem, a gente conversa e depois ele te leva de volta pra rádio".

Fui. Conversamos. Deu para perceber sua preocupação com o quadro geral e com a lentidão com que o governador foi informado de tudo. 
Enfim, o Elcio se tornara "o culpado" pela enchente do Rio Doce. Claro, figuradamente. Tentaram maquiar o quadro geral para ele.

O publicitário Edgar Cabideli publicou uma página em A Tribuna isculhanbando o Élcio de omissão, falta de ação, enfim, foi uma bomba.

Quem aliviou "a barra" desse manifesto - na verdade, de certa forma exagerado - do Cabideli.
O Bisco Dom João Batista da Motta e Albuquerque (foto). Como? Simples.

Ele argumentou:

- O trabalho coordenado pelo Oleari na Rádio Espírito Santo é um trabalho de certa forma do governo estadual - disse Dom João.

E a bem da verdade, o Elcio não interferiu em momento algum de toda a epopeia, embora toda a ação tivesse partido da criatividade, da garra, da resistência de profissionais que se integraram a tudo de corpo e alma.

Quero dizer com isso que não foi uma ação burocrática de governo, de qualquer secretaria. Mas foi um veiculo do Estado - e não do governo - que comandou toda a epopeia, claro.

Nos últimos dias, a Rádio Espírito Santo realizou algo inesquecível. Os aviões da FAB vinham de Resplendor, de Itueta, de Aimorés, de Baixo Guandu, de Itapina, de Colatina, de Linhares, trazendo retirantes, gente que vinha se socorrer em casas de parentes em municípios do que seria depois a Grande Vitória.

Escalamos repórteres no Aeroporto e um deles que mais deu plantão lá foi o Marcos Rosetti.
Ele falava de lá:

- Oleari, precisamos de carros pra levar pessoas pra diversos lugares.
E citava pessoas, famílias, que iam praqui ou pracolá. 

Logo depois, Roseti dizia: "Oleari, várias famílias e pessoas já foram atendidas e outros carros estão aqui pra levar outras tantas".
Tivemos o cuidado de informar que todas essas pessoas tinham referências e endereço certo para ir.

Foi ducaramba. Não foi ducaraba só, nunsinhô. Foi ducarai memo.

Terminados os doze dias de confinamento no estúdio, terminados os quatro dias sem fala, eu recebi na Rádio Espírito Santo o radialista Jota Dinis, dono da Rádio Aimorés.

Ele veio homenagear a Rádio Espírito Santo e no nosso papo ele declarou:

- A Rádio Aimorés salvou muita gente da morte durante a enchente. E a Rádio Espírito Santo salvou muita gente da fome, da falta de roupas, das carências de remédios.

Colatina, minha terra, ficou devendo uma homenagem à Rádio Espírito Santo. E olhem que falávamos várias vezes por dia com o então prefeito Devacir Zaché, com a mulher dele, cujo nome não me lembro, com o Moacirzinho Dalla - filho do senador Moacir Dalla - entre outros, que encaminhavam as demandas do pedaço.

Colatina continua devendo uma homenagem à Rádio Espírito Santo (Oswaldo Oleari ou Oleare).




oswaldo oleari ou oleare (feissibuqui)
é radialista,
jornalista,
peão da
comunicação

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