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Aqui Rubens Pontes: meu poema de sábado - A Vida Escondida, Leida Lusmar

10 de junho de 2017
- Comendador Capixaba Oswaldo Oleare:


Como o Espírito Santo, Minas Gerais é o berço de algumas das mais admiradas
poetas brasileiras.

Adélia Prado, Bárbara Heliodora, Henriqueta Lisboa marcaram, entre tantas
outras, destacada presença na nossa bibliografia, situando-se no nível
de Floberla Stanca, Elizabeth Browing, Marie-Jeanne L'Heritien Villandon,
nomes universalmente reverenciados.


Leida Lusmar, também aplaudida escritora mineira 
se integra a esse elenco de intelectuais inserindo na poesia brasileira uma conotação,
(quase dizia telúrica) inovadora, impregnada de simbolismos, de um misticismo
até certo ponto perturbador.

Um dos seus livros, 

"Bebo chá enquanto os patos grasnam", obteve grande sucesso de livraria.


Neste sábado de junho, vento soprando suave desde o oceano sem fim,
embalado pela programação musical da Rádio Clube daBoa Música, leio e me comovo,
é verdade um pouco assustado, "A Vida Escondida" -
- sugestão de Vera Lúcia Calazans - como se parte escamoteada
da minha própria biografia estivesse sendo também ali registrada.
Um J'accuse", como em Zola, que me leva a bater no peito e me penitenciar.

Mesmo tomado de perplexidade, valeu e vale a leitura.

Ex-totto-corde, Rubens".




A VIDA ESCONDIDA


Leida Lusmar

A Vida está escondida
debaixo de sete véus
cercada por sete cascas,
atrás de sete portais.
Quem viu a vida um dia? Ninguém.

A Vida está escondida na flor vermelha do bosque,
na folha verde, na goiaba, no córrego,
no inseto agarrado à casca desta árvore,
na árvore, em todas as árvores,
em tudo a Vida está.
Quem viu a Vida um dia, levante a mão!

A Vida vive escondida
na essência de cada coisa.
na alma de cada ser.
Cria o desenho que gosta.
Fabrica a roupa que quer.

Veste-se de bicho,
de ouro,
de prata,
de estrela,
põe asas de borboleta,
cobre-se de grãos de areia,
a Vida é o doce e o azedo.
Uma das belezas da vida é esta: usar roupas contrárias.
Usa a roupa do fogo. Usa a roupa da água.
Usa a roupa do barulho. Usa a roupa do silêncio.

Quem escutou a Vida um dia, venha à frente, conte alto!
A Vida é sempre invisível.
No entanto pode ser percebida através de muitos sinais.
Quem viu o brilho dos olhos viu um belo sinal da Vida!

Mas a gente não percebe a Vida.
Quase não liga para a Vida.
Liga só para uns poucos:
algumas pessoas mais chegadas,
um cachorro bagunceiro,
um cavalo malhado,
duas maritacas conversadeiras,
um pé de abacate ou uma roseira
e... só.

Mas à Vida... a gente não ama.
A gente despreza a Vida.
Desrespeita, destrói o que a Vida cria.
Destrói matas, suja rios, maltrata animais e pessoas.
A gente é cruel com a Vida, não sei por quê.

Quem viu a Vida um dia,
fique calado e feliz,
pois ninguém jamais viu a Vida
nem quem quis, nem quem não quis.
Quem viu a Vida me conte. Prometo guardar segredo.

Eu amo a Vida escondida. Amo de chorar. De montão.
Porque eu sei: nós não somos a casca da Vida,
não somos sua capa, sua veste
nós somos a própria Vida
cá dentro do coração,
olhando por nossos olhos,
falando por nossa boca,
amando por nosso amor.








Rubens Pontes
é jornalista,
poeta,
escritor




Rádio Clube da Boa Música - Primeira Classe, de A a Z. Em www.donoleari.com.br . Além do Portal DOPC, você encontra Rádio CB EME no blog do casal Martha Pimenta-Walton Abreu e nas fanpeijis da rádio no feissibuqui.

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