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Ramon Alvarado: 12 de junho, dia do sacrifício do herói espírito-santense da Revolução Pernambucana de 1817, Domingos José Martins

12 de junho de 2017
12 DE JUNHO, a segunda data configuradora do brasão espírito-santense. A primeira é 23 de maio, dia da colonização do nosso solo e da implantação do historicamente superado sistema monárquico-absolutista português de Capitania Hereditária.


Praticamente esquecida pelos capixabas, o que não ocorre com a primeira data do brasão, talvez pela diferença de significado entre as duas, refere-se ao dia do sacrifício (arcabuzamento) do herói espírito-santense da Revolução Pernambucana (ou Republicana) de 1817, Domingos José Martins. 

Talvez tenha caído no esquecimento, a data, por não termos vencido o espírito hereditário, aristocrático, patrimonialista, escravista, do vetusto sistema colonial português e, no fundo da nossa alma, no nosso inconsciente, coletivo, não aceitarmos a República que, há 128 anos, consta oficialmente como nosso sistema político.

De triste porém instigante memória, 12 de junho representa a participação do Espírito Santo naquela revolução. 

O nosso estado, à diferença de outros que, com homens ou ações, também se envolveram no movimento revolucionário – estados onde se comemora , no presente ano, com orgulho e solenidade, o bicentenário da citada revolução –, deixa passar em brancas nuvens o evento da maior importância, não só regional como nacional, pela revisão que vem se fazendo da história oficial brasileira.

Celebrando pessoalmente a data, posto aqui o esboço de tela do pintor Antonio Parreiras (imagem acima), intitulado Os Mártires e alusivo à execução, em Salvador (BA), dos republicanos, ou “patriotas” (como eles se chamavam), Domingos Martins, José Luiz de Mendonça e Frei Miguelinho. Na madrugada do dia 12, eles se encontravam no oratório da cadeia pública, aguardando decisão final da comissão militar encarregada de julga-los.

José Luiz de Mendonça, que, como advogado, apresentara embargos à sentença condenatória de morte para os três, alimentava esperança de remove-la com argumentos jurídicos; Domingos Martins, sem esperança alguma, aproveitava os últimos momentos para compor um poema endereçado a Maria Teodora da Costa, a esposa com quem se casara dois meses antes, em pleno processo revolucionário; e Frei Miguelinho, como religioso, “fazia subir aos céus as suas derradeiras ancias penitentes na mais ampla e altruísta melodia”, no dizer de Teófilo Leal, autor do romance ensaístico Frei Miguelinho ou Aspectos Políticos e Moraes do Tempo de D.João VI. Do mesmo livro, transcrevo trecho descritivo do dia 12 de junho de 1817:

- “O dia que amanhecera fora o 12 de junho, dia infame, o do assassinato de três brasileiros notáveis da época.

Para assistir a esse espetáculo monstruoso, a esse drama de sangue, amontoavam-se desde o romper d’alva, no campo da Pólvora e circunvizinhanças, não só os moradores de todos os bairros da cidade, mas também os dos povoados próximos que demoravam por algumas léguas em volta. As janelas das casas, situadas ás ruas por onde o préstito fúnebre havia de passar, pejavam-se de curiosos. Havia na fisionomia dos espectadores uma expressão mais de curiosidade que de comiseração que taes espetáculos despertam sempre. O medo tolhia-lhes os movimentos mais naturaes da alma.

Eram nove e meia da manhã, quando, revestidos de alva, algemados, com corda ao pescoço, pés descalços, saíram os três condenados do oratório para o cadafalso do suplicio. A lugubre enscenação lhes não havia abatido a alma. Vencedores que não conheceram vingança, vencidos que não perderam a cor do rosto diante do tribunal de sangue, os três paladinos da revolução liberal não dariam aos déspotas do momento a impressão mais leve de dor, nem deixariam á posteridade o menor vestígio de fraqueza. Calmos e serenos, caminharam para a morte.

Um registro da importante data no Palácio das Águias, em Marataízes, litoral Sul do ES, ao qual o Portal DOPC teve acesso através do jornalista Carlos Fernando Lima.

Ao aproximarem-se da escolta que os devia conduzir, Domingos Martins, olhando com severidade os soldados, exclamou com exaltação, á mistura de remoque.

— Vinde executar as ordens do vosso sultão!...Eu morro pela liberdade!...
— Que te aproveita, filho, – perguntou o padre ezortante, interrompendo-o – rebalsares o espirito no lodo deste lado do mundo, quando poucos momentos te restam? Desprende-o da terra, deixa-o subir aos pés daquele que tem um sorriso de bondade para cada erro e o perdão para todos os crimes.
Este homem extraordinário, rico de bondade, heroe na ezata e comovente significação do termo, porque só os bons são heroes, fitando por alguns momentos o padre ezortante, sorriu e deixou pender para o peito a cabeça, e, sem proferir mais palavra, retomou a marcha.

Meia hora depois, com os seus dois companheiros, tombava Domingos José Martins, no momento em que arranjava na mais bela e artística desordem as dobras da alva, expressão de despreso profundo atirada pela sua alma á prepotência.”



Ramon Alvarado
é jornalista
e cineasta

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