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Aqui Rubens Pontes: meu poema de sábado - Com licença poética, Adélia Prado

1 de julho de 2017



- Objurgado Oswaldo Oleare

Faço uma viagem mental às minhas Minas Gerais para recolher, no campo da memória que teima em não ser fugidia, a figura de uma das mais notáveis poetas brasileiras. Adélia Prado nasceu em Divinópolis em 1935, filha de um ferroviário, e foi a partir daquela pacata cidade que deu inicio à sua fulgurante presença no campo da literatura brasileira,.

- "Moça feita - confessou - li Drumond, e mais tarde Guimarães Rosa,
Clarisse (Lispector). Esta é a minha turma, pensei. Gostam do que eu gosto."

Carlos Drumond de Andrade foi uma espécie de padrinho de Adélia Prado, ao recomendar à Editora Imago a edição de seus poemas, que pareciam a ele "fenomenais". 

O lançamento de "Bagagem", seu primeiro livro, no Rio de Janeiro, em 1976, teve a presença de Antonio Houaiss, Raquel Jardim, Carlos Drumond de Andrade, Clarisse Lispector, Affonso Romano de Sant'Anna, Nélida Piñon, Alphonsus de Guimarães, estrelas de primeira grandeza na constelação da nossa intelectualidade.

E teve também o mecenas das artes Juscelino Kubitschek, todos personagens que evidenciaram sua admiração pela poeta, que já no seu primeiro, de mais de uma dezena de livros editados, mostrava seu indiscutível talento.

Deus é personagem em toda sua obra:

"Tenho confissão de fé católica. Minha experiência de fé carrega e inclui esta marca. A religião dá sentido à minha vida, costura minha experiência, me dá horizonte.Acredito que personagens são álter egos,está neles a digital do autor. Mas, enquanto literatura, devem ser todos melhores que o criador para que o livro se justifique a ponto de ser lido pelo seu autor como um livro de outro."

Adélia Prado teve muitos de seus poemas traduzidos para o inglês, para o espanhol, para o italiano, e presença nas mais importantes 
antologias editadas no Brasil e no Exterior.

Participou Adélia Prado de programas de intercâmbio cultural em Portugal e em Cuba, apresentou-se em Nova Iorque na Semana Brasileira de Poesia, e em Berlim de um encontro entre escritores latino-americanos e alemães.

Além de poesia, a escritora mineira publicou volumes em prosa, com igual repercussão.
Fernanda Montenegro apresentou em teatro, no Rio de Janeiro, a peça "Dona Doida, um interlúdio", baseada em textos de Adélia Prado.
O drama obteve sucesso também em diversos estados brasileiros, nos Estados Unidos, na Itália e em Portugal.

Enquanto faço essas divagações, concilio a batida de dois dedos no teclado do computador com a suavidade da música que me chega, via mistério das ondas "infernetianas", como diria o Oleari, transmitida pela Rádio Clube da Boa Música, uma associação prazerosa e até certo ponto inspiradora.
Abraço,
Rubens".


COM LICENÇA POÉTICA


Adélia Prado


Quando nasci um anjo esbelto,

desses que tocam trombeta, anunciou:

vai carregar bandeira.

Cargo muito pesado pra mulher

uma espécie ainda envergonhada.

Aceito os subterfúgios que me cabem

sem precisar mentir.

Não sou feia que não possa casar,

acho o Rio de Janeiro uma beleza e

ora sim, ora não, creio em parto sem dor.

Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.

Inauguro linhagens, fundo reinos,

- dor não é amargura.

Minha tristeza não tem pedigree,


já minha vontade de alegria,

sua raiz vai ao meu avô.

Vai ser coxo na vida é maldição para homem.

Mulher é desdobrável. Eu sou.

Adélia Prado, foto de 2014

Rubens Pontes 
é jornalista,
radialista, 
publicitário,
escritor, 
poeta, 
prosador

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